- Isso vai lhe trazer aporrinhações, alertava o vizinho da frente ao rapaz cuja esposa, por pena, deixou sobre a calçada uma vasilha de ração para um cão de rua.
A mulher empombou quando um dia depois o pessoal do prédio enxotou um outro vira-lata que tentava entrar. Ela achou ruim e trouxe-o também para perto de casa, enquanto praguejava contra a insensibilidade humana como se carregasse na barriga a deusa protetora dos animais.
Dentro de poucas semanas, já se contavam uns seis.
E ontem um deles mordeu uma criança de três anos, que caminhava de mãos dadas com o pai.
Publicado por Carlos Vinicius Ribeiro.
Carlos Vinicius Ribeiro não anda sem coleira.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Os Cães da Heitor Mendonça
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Poder
O garoto tinha um dedo machucado sob as pernas arranhadas e brancas de poeira, dentro de um par de tênis imundo. A barriga sobrava na camisa de alguém – o ex-dono da roupa era alguém obviamente menor que ele. Sobrava a tal barriga e o olho – era preciso não dormir, apesar do cansaço. Não se mexia. Pensava, do alto dos seus onze anos, que um dia queria ser palhaço em um circo. Seria algo? O futuro estava em suspenso, um pouco mais do que para as outras pessoas.
Queria jogar futebol, chutou um pedrinha pequena, catou uma tampa de plástico no meio da imundície daquele chão sujo, daquele lugar sujo, daquela vida. A boca permanecia calada já de duas horas – eram duas horas de silêncio em um menino de onze anos construído por muitos silêncios. Os ombros estavam doloridos, peso do que se carrega, e ele carregava coisas que já não podia, que nunca poderia ter.
Do alto do mais alto barraco daquele morro, ele espreitava. Tinha onze anos, quase doze. Até que viu algo se mexer. Em um silêncio de menino emudecido pelo tempo, não pensou mais no picadeiro colorido, gigantesco.
O movimento curto dele deslizou o orvalho, desenhando um rio sobre a superfície gelada e escuramente metálica. Poder. O dedo deslizou lentamente no gatilho, tracejando a madrugada.
Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto se recusa a dar adeus ao Snoopy.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Curso
José Salantiel de Lima, a mulher e os filhos moravam em uma pequena fazenda em Araçagi. Inácio era o caçula. Nasceu em dezembro de 1972. No começo de 91, foi morar no Rio de Janeiro. Oito anos depois, casou-se, na fé, com Carmen Gomes de Souza e passaram a morar no morro do Mesquita. Em janeiro de 2002, tiveram Lucas Souza de Lima.
Marcelina Aparecida Firmino era uma índia potiguara que havia sido batizada na Catedral de Nossa Senhora da Luz em 1923, ainda bem criança. Em 1936, sua família passou a morar em terra de seu Miguel Gomes D'Almeida. O português a viu entre as outras meninas e gostou. Marcelina casou ainda menor de idade, na mesma igreja onde tinha sido batizada 16 anos antes. Passou a se chamar Marcelina Aparecida Firmino Gomes. Em 1941, nasceu o primeiro. No total foram vinte e um. Sete morreram antes de completar um ano, alguns sem receber nome.
Cirilo era tio mas estava mais para irmão mais velho de Paulo César, Nilton,Roberto e Jair. A diferença de idade não era tão grande. Ficou feliz quando soube que seu sobrinho, Niltinho, estava a serviço da pátria brasileira. Ficou bolado quando soube que seu sobrinho, Niltinho, estava fumando maconha.
Publicado por Pablo Garcia.
Pablo Garcia não acredita nos formalistas russos.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Reino Animal

Publicado por Leo João.
Leo João faz sucesso com o grupo de pagode "Vida Barata".
domingo, 25 de julho de 2010
teu beijo
é um poema inteiro
que nasce por dentro
da minha saliva
mais emocionada
...
toda minha língua
medrosa sonha com ele
pelos minutos
do centro que pulsa
e me estremece
Publicado por Beatriz Bajo.
Beatriz Bajo rouba o vermelho da cereja.
sábado, 24 de julho de 2010
Memórias Noturnas
O verão dos trópicos convida sempre a muito. A noite mesmo convida mais nos verões tropicais, e é para a festa que começará tardia. Nesses dias o sol nunca quer se pôr. E, à moda da casa, cada qual na sua, dia com sol ou noite com lua.
No Rio de Janeiro a noite vem parando pelo caminho, sorrindo melancólica, cariocamente atrasada ela começa, chegando sem pressa de acontecer, com suas estrelas casuais penduradas ao vestido comprido, rasteirinha de nuvens frescas, cabelo de brisa bondosa, úmido ainda com cheiro de Dama da Noite. Vem para aliviar o castigo do sol diurno, ferrenho, marcante das peles que a ele se expõem por prazer ou necessidade.
A noite cortês recebe delicada e indiscriminadamente, envolvendo as confusões humanas em seu manto permissivo, venal, hedonista, ébrio. Acompanhada dos tambores tocadores do baixo ventre traz à baila desejos que só são se for de noite, levando ao movimento toda uma natureza, viva e morta. Há quem ressurja das cinzas em plena madrugada, distribuindo sustinhos pelas calçadas acidentadas da Lapa velha, aquela que deixa saudosos os que dela gozaram do anonimato subversivo que se concediam os habitues de todos os sítios.
A maresia deixa carregados os caminhos percorridos. Tal qual velhos suburbanos, sentados nas calçadas em frente a seus portões ela conta historias das vidas dos outros, iluminando as passagens dos ouvintes atentos aos ais que repenicam ainda, para o bem ou para o mal. Tanto por lá vivido, contos e contas acumulando-se pela paisagem à francesa, machucada já e querendo mais, como boa mulher de malandro que é, a noite na Lapa quer mais, ainda pode mais. Pede que venham todos com seus despojos e que ali se deleitem com o não querer saber do dia de amanhã.
Publicado por Elis Barbosa.
Elis Barbosa se disfarça com bobs no cabelo e óculos de abelha para espiar a vida na calçada.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O acidente nos arredores de Groom Lake
Vinha guiando o veículo com a presteza, habilidade e paciência que os anos de experiência lhe emprestaram. Apesar da pressa, tinha de terminar as entregas ainda naquela noite. Seguia devagar, pois a idade avançada já não lhe permitia o privilégio da velocidade.
Curva a curva ele seguia em sua trajetória. Nada o distraía de seu serviço. Pessoas dependiam dele e de suas entregas. Algumas vezes, via-se cego. Faróis altos de carros apressados em sua volta para casa eram jogados contra suas pupilas dilatadas. Não raro, tinha de sair da frente de algum motorista que dormisse ao volante ou um inconsequente que porventura dirigisse embriagado. Era sempre assim. Trabalhar à noite significava aprender a lidar com adversidades.
A certa altura da noite, cruzava uma área semideserta de... não se lembrava direito onde estava. Abriu o portaluvas e remexeu algumas coisas. Ali, entre o pacote de M&Ms e os comprimidos de energéticos para se manter acordado, encontrou alguns papéis e, dentre eles, um mapa.
Olhava o mapa tentando se localizar em meio às inúmeras rotas delimitadas no papel quando finalmente descobriu onde se encontrava. Seu espanto foi tamanho ao tomar consciência de quão longe de sua rota se encontrava. Naquele instante, entre a surpresa e a indignação de encontrar-se perdido e a preocupação de encontrar sua rota em meio ao tempo que se esvaía, divagou por um breve segundo.
O susto lhe fez recobrar a atenção. Como se surgindo do nada, uma forte luz o cegou. Exigindo de seus rápidos reflexos, tentou desviar dos faróis que vinham em sua direção. Mas era tarde demais. Ouviu-se um forte estrondo rasgar a noite. O acidente entre os dois veículos havia provocado um grande choque.
Por sorte, seu veículo era seguro e ele não se encontrava ferido. Olhou o outro veículo a sua frente. Pegou se celular, parou um pouco para pensar qual o número de emergência do lugar onde se encontrava e, discando-o, chamou a polícia para informar sobre o acidente.
Minutos mais tarde, já com a autoridade e uma ambulância no local, o velho homem se lamentava. Não poderia fazer suas entregas naquela noite. Dezenas de pacotes espalharam-se por metros com o impacto. Muitos se quebraram, mas o principal dano era irreparável: deitada no chão frio do deserto, Rudolph estava morta. A pobre rena, a única no mundo com nariz vermelho recebera quase todo o impacto. Outras como Dasher, Dancer, Prancer e Vixen quebraram suas patas e não poderiam mais correr pelos ares.
O homem de longas barbas brancas estava inconsolável. Tentava em vão convencer o paramédico da ambulância a levá-las para o veterinário mais próximo, mas este se recusava a levar animais no veiculo médico.
Há poucos metros de distância do inconsolável Papai Noel, dois policiais analisavam o pequeno bafômetro. O índice de álcool dera um valor absurdo, cerca de mil vezes acima do permitido, então puseram-se a algemar o responsável pela tragédia. Dirigindo embriagado, o alienígena tipo Grey, aquele de corpo pequeno e franzino com cabeça gigante e grandes olhos pretos, dizia ter bebido só um pouquinho, mas, no interior de seu disco-voador, os policiais encontraram quinze engradados de cerveja vazios. Prova irrefutável de que pilotava embriagado. Papai Noel sentou-se no chão sujando sua aveludada roupa vermelha e jogou fora a touca com cabelos postiços, deixando à mostra uma careca. Um policial o olhou intrigado. O bom velhinho não se dignou a responder.
Seria uma longa noite no deserto de Nevada.
Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez ainda não perdeu pontos na carteira de habilitação. Pelo menos, não nesta galáxia.

