Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Trilha Sonora

http://www.youtube.com/watch?v=PCkT4K-hppE
(Pequeno manual de instruções: colocar a música do link ao fundo e deixar tocar por aproximadamente 40 segundos, para adentrar a ambiência do texto. Só então retirar a pausa da leitura para acessar integralmente a experiência)


Preparada a cavalgadura entre as corcovas do camelo: almofadas persas, sedas multicores, rebrilhos. Acessórios que eram palavras vindas de longe e agora escoltavam de volta ao longe, deslocavam pelo encanto. 

Pernas compridas, de observatório, tem o animal. Entre as preferidas de Dalì. Erguendo-se, desaprumado, um elevador de patas alçando a vista.  Todo gerúndio, musculatura em movimento. 

Ali de cima ser era mais amplo. O mundo que balance lá embaixo! O olhar dança. A cada passo do improvável bicho a estrada ondula. Ao invés de curvas, parábolas. O camelo engendra pequenos, imaginários precipícios. 

Ao moverem-se os flancos, o caminho soluça, o horizonte ziguezagueia. Os olhos são odaliscas sem véus. O olhar, redobradamente, dança.

Publicado por Roberta Mendes
Roberta Mendes credita poderes alucinatórios à inofensiva camomila. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caderninho de perguntas

Sabe aquele tipo de lembrança que surge de maneira absolutamente insuspeita e te deixa pensando de que distante recesso do seu subconsciente ela aflorou? Outro dia eu estava em casa, matutando sobre o nada, quando uma atividade da minha época de Ensino Fundamental 2 (que antigamente conhecíamos como ginásio) acendeu em minha mente como um sol: existia o hábito de se criar e responder cadernos de perguntas. Não sei se isso era prática comum em outros estados do Brasil e nem mesmo se ainda existe, mas nos idos dos meus 13, 14 anos de idade era uma febre. Havia ocasiões em que, numa mesma sala de aula, disponibilizavam-se cinco, seis cadernos do tipo ao mesmo tempo. 

Para aqueles que porventura não tiveram essa experiência ou não se recordam claramente, uma breve explanação se faz oportuna: o termo “Caderno de Perguntas” é bem auto-explicativo, já que as meninas (e uns raros meninos) compravam cadernos em branco e a cada uma ou duas páginas escreviam uma pergunta. Depois de criadas as questões – alguns cadernos chegavam a ter 150 perguntas ou mais – o caderno era passado adiante na sala de aula e entre os amigos e as pessoas deveriam responder da maneira mais sincera possível. Depois de terminado o caderno (o que significava ter todas suas linhas preenchidas, sem vaga para um ponto sequer) e muitas vezes antes mesmo disso, as pessoas, curiosíssimas, liam as respostas dos outros. Havia o interesse das garotas em saber as respostas dos garotos e vice versa. Eu respondia e lia por que sempre quis conhecer o outro.
O caderno começava básico: qual seu nome, onde mora, coisas do tipo. Era um “reconhecimento do território”, por assim dizer. Depois as questões se aprofundavam em temas de interesse da adolescência. As perguntas eram sempre as mesmas e as respostas, muitas vezes, também se repetiam à exaustão: “Você é virgem?” As meninas sempre diziam que sim, mesmo quando era sabido que isso era mentira. “O que você acha das drogas?” A resposta engraçadinha mais comum era “As drogas são uma droga”. “Deixe uma dedicatória” e sua infame e deplorável variação “Deixe um piche”. Após algum tempo irritava-me a obviedade das perguntas e respostas e eu decidi fazer um caderno que ninguém entendeu e ninguém respondeu.
Hoje, décadas depois, em tempos de perguntinhas e aplicativos irritantes nas redes sociais, acho que cabe a criação de um novo caderno de perguntas, uma atualização para as pessoas daquela geração, que envelheceram (todas) e amadureceram (nem todas, com tudo que existe de bom e de ruim nisso). Então eis aqui minhas perguntas, algumas copiadas de outros perguntadores, pois são sempre interessantes. Ainda há em mim a curiosidade em conhecer o outro e as perguntas refletem isso. Não há perguntas cretinas ou pertinentes ou óbvias, mas lembrem-se: as respostas, essas sim podem ser adjetivadas, posto que podem enriquecer ou empobrecer a indagação à qual se referem.
CADERNO DE PERGUNTAS 2012 (leia uma pergunta, pense na resposta e somente em seguida leia a outra)
1 – O que você pretende ser quando crescer, além de um bom animal?
2 – O que falta fazer?
3 – Cospe ou engole?
4 – Mentir é ruim?
5 – Como viver?
6 – Que fama você tem e que fama gostaria de ter?
7 – A Era do pensamento Socrático já deu. O que fazer? Recorrer aos pré-Socráticos (e ao devir) ou pensar algo verdadeiramente novo?
8 – Quem matou mais o deslumbramento humano: Religião ou Ciência? Elabore.
9 – Certa feita perguntaram a Chet Baker que queixa ele tinha a respeito das drogas, ao que ele respondeu: “O preço”. Que reclamação você tem a fazer a respeito das drogas?
10 – Dois personagens da literatura e um do cinema que te definiriam. Elabore.
11 – Como você quer morrer?
Algumas perguntas do questionário de Bernard Pivot, inspirado em Proust:
12 – Qual sua palavra favorita e a palavra que você menos gosta?
13 – Que som você ama e que som você odeia?
14 – Qual seu palavrão favorito?
15 – Se o Paraíso existir, o que você gostaria de ouvir de Deus ao adentrar Seus portões?
Responda todas as perguntas, responda algumas, responda apenas uma; deixe as suas respostas nos comentários ou as mande pro meu email; se preferir não responda nenhuma, apenas pense nas respostas que você daria; acrescente novas perguntas, se isso lhe aprouver.
No final do bimestre, antes da prova de Educação Moral e Cívica, compartilharemos as respostas.


Publicado por Marcio Greg
Marcio Greg nunca se limitava à pêra, uva ou maçã. Sempre escolhia a salada mista.






quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Warp Zone - game over

     A busca na memória levaria os garotos primeiramente à casa de Dona Gomerci – lembravam-se de terem visto algumas coisas atulhadas pelo quintal quando tiveram de podar-lhe as árvores. Pelo que se podia calcular, havia, de alumínio, uma meia dúzia de trilhos de cortina, uns dois baldes amassados e uma bacia de roupas; de ferro, uma janela e duas cadeiras. Pelo menos.
     Tratava-se de um carregamento razoavelmente grande, o suficiente para que os cinco fizessem parte da ação, já que o melhor seria liquidarem a carga em viagem única. Além disso, nenhum transeunte teria dúvidas de que aquilo era um saque se resolvessem passar todo aquele volume por cima do muro. Por incrível que parecesse, o caminho mais absurdo era também o mais viável: pelo portão, como se nada estivesse acontecendo. O quinteto, embora não jogasse no futebol da rua, sabia que os garotos mais velhos tinham um macete para secretamente pegar a bola quando caía lá, bastando virar o cadeado de lado para que o ferrolho se abrisse. Os meninos teriam apenas que esperar o domingo, quando Dona Gomerci e toda a coroada da vizinhança – os únicos a acordarem cedo num domingo – estariam na missa das sete. Quaisquer outros que passassem não estranhariam tamanha naturalidade, e a velha, provavelmente, nem daria falta daqueles itens, por tanta quinquilharia preservada no quintal.
     O plano deu certo. As crianças esconderam o material no próprio terreno baldio que dava para os fundos da casa de repouso, embaixo do lixo que elas mesmas haviam colocado nas semanas anteriores. Até a segunda-feira, quando realizaram a venda. Depois disso, sentiram que podiam fazer qualquer coisa.
     Os alvos seguintes, no entanto, não puderam dispor das mesmas circunstâncias, obviamente. As missões noturnas eram maioria; e os objetos encontrados, poucos: quadro de bicicleta, secador de roupa, carrinho de feira – qualquer metal que pudesse ser passado sobre os muros. Mesmo assim, não eram tantas as casas cujo acesso aos fundos fosse fácil, precisando muitas vezes que se restringissem às de esquina, pela visão lateral.
     De modo que não tardou para as ações evoluírem à caça de coisas úteis, por escassez das inúteis. Uma noite, levaram um botijão vazio de gás. Outra, um cheio, apesar do peso. Rodas de carro de um borracheiro que mantinha uma pequena oficina em casa. Assim como o minicompressor do mudinho que havia feito de cicle o quartinho embaixo de sua escada. Tudo que os meninos levavam o homem do ferro-velho comprava. E àquela altura já cagavam grosso até nas cabeças dos amigos que nem frequentavam as locadoras de videogames. Afinal, sempre haveria alguém para fazer o mesmo nas cabeças deles também, como aqueles mesmos garotos mais velhos, que posavam triunfantes em suas camisas bordadas de gola rolê, calças balinesas e papetes fluorescentes pelas festas de rua – uma realidade que, embora não representasse salto algum na classificação sócio-econômica, permanecia ainda fora de alcance para o grupo.
     Mas, como já não era mais o tempo dos jogos sem fim como Enduro e River Raid, aquele foi zerado. O comentário de que as casas andavam sofrendo invasões crescia conforme o desejo de se castigar o invasor desconhecido. E algo do tipo aconteceu.
     Henrique trabalhava fazendo no-break para uma empresa de telecomunicações, então dispunha na garagem de sua casa de uma Fiorino com um gerador a gasolina, e mais de uma dúzia de baterias de carro. Os garotos descobriram que o portão daquela garagem admitia um outro tipo de macete, levantando-se o trinco de baixo e puxando as duas abas do portão ao mesmo tempo. Quando Henrique se preparava para sair na manhã seguinte, deu falta das baterias e ficou sem entender coisa alguma. Foi Seu Orlando do final da rua, que assistira a tudo de seu sobrado, quem lhe explicou o que havia acontecido.

– Ah, mas isso não vai ficar assim, não!

     Henrique encontrou os cinco em uma das locadoras e arrastou-os pelas camisas, trancando-os na Fiorino e passando pela casa de cada um deles para dizer às mães que seus filhos haviam sido apanhados roubando, e que, além de recuperar as baterias, eles passariam o dia inteiro carregando areia na obra da casa de seu pai. As mães apoiaram.
     Infelizmente, o castigo não foi o bastante. Os meninos calcularam que ainda haveria tempo para uma última operação, já que suas mães não sairiam espalhando o ocorrido – por vergonha – e Henrique e seu pai só voltariam à noite; logo, pouca gente chegaria a saber antes do dia seguinte. Quem os via ali, carregando areia, achava que estavam apenas trabalhando, como sempre fizeram. Ao mesmo tempo, se agissem naquela madrugada, possuiriam o falso álibi de já terem sido descobertos, o que teoricamente inviabilizaria novas ações do grupo, transferindo-se a autoria do novo ataque a algum perpetrador desconhecido.
     E assim se fez. Ou quase.
     A casa de João Pescador não tinha muro. Era só uma faixa larga de terra com um recuo de uns dez metros até a varandinha da frente, entrada para a casa humilde. Naquele trecho de terra havia a Marajó de João e um reboque curto com um pequeníssimo barco em cima, coberto com uma lona amarrada. Um pequeníssimo barco de alumínio. João tinha suspeitas sobre quem andava praticando as invasões, e sabia que mais cedo ou mais tarde seu barco seria o alvo.
     O plano dos meninos era esconder o barco no lixão que se formara atrás da casa de repouso até que o próprio homem do ferro-velho e seu ajudante fossem buscá-lo com a camionete. Todavia, o que se seguiu foi o desfecho torto que só um catálogo de equívocos como aquele poderia construir.
     As crianças desapareceram como se tivessem entrado por uma warp zone.
     Henrique foi apontado como principal suspeito pelo desaparecimento das crianças. Como nada seria provado, os moradores do bairro decidiram puni-lo por conta própria – alegavam que Henrique tentara criar um falso álibi ao passar pelas casas avisando que havia apanhado os garotos roubando.
     João continuou pescando. Ninguém sequer ouviu falar sobre qualquer tentativa de roubo de seu barco.
     E como toda warp zone tem saída, quatro meses depois o quinteto foi encontrado. No terreno baldio que dava para os fundos da casa de repouso, quando a Prefeitura finalmente resolveu atender o pedido dos moradores para acabar com aquele monturo que eles mesmos ajudaram a criar.



Publicado por Carlos Vinicius Ribeiro.
Carlos Vinicius Ribeiro até gosta bastante da música de Lana Del Rey, mas reconhece que a Florence Welch se envolve muito mais.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Borrachas

     Ela passeava pela neblina, num estado de tensão que poderia ser observado pela maneira como mordia os lábios incertos sob o guarda-chuva.
     O corpo esguio, levemente deformado, deslizava com rapidez pela garoa daquele frio nevoento. Sua magreza e palidez sempre evocavam o frio e a fragilidade, como se algo a precisasse conter, dar suportes. Era uma mulher pequena, de mãos pequenas, de olhar que emanava uma fuga premente, um certo desconforto com qualquer outro ser humano que se aproximasse. Era isso: o desconforto que lhe causavam os humanos. A impossibilidade da proximidade real, um furor de pânicos e mãos cruzadas e suarentas, que se mexiam incontroláveis.

    Caminhava sob a delicada chuva com seu vestido vermelho e suas galochas amarelas. Poderia ser bonita. Não a mais bonita. Uma beleza qualquer.
     E se caminhava sob o final de tarde, era porque tinha tomado uma decisão e queria levá-la, sem carregar consequências. Ninguém gosta de consequências. Principalmente das brutais. Ela, na realidade, temia as consequências. As brutais. Mas as piores, ela o sabia, eram as delicadas.
     Chegou ao pequeno prédio com a decência dos que conhecem as consequências de fim. Era um fim ao futuro possível. Então não era isso, a vida, renunciar aos futuros possíveis? Era isso o tempo todo, ela pensava sob o teto da sala de espera. Você toma uma decisão, que se desdobra em outras decisões, e na maioria das vezes não dá pra pegar a borracha emprestada, como fazia na escola onde estudava, porque sempre perdia as borrachas. Ela disse que nem sempre dava pra pegar borrachas emprestadas, e ele retrucou que nesse caso tinha, mas essa borracha era grande demais para caber na palma da mão da morte, e a cara séria dele denunciava que não tinha jeito, que não tinha jeito para mais nada ali. Ele não me disse que não tinha jeito, ela pensou, mas o diálogo terminou nas formas mudas da face um do outro, pois as palavras não cabiam ali – sobravam, sobrariam. Então era isso, a atendente no balcão confirmava a hora do procedimento, e ela olhava para a atendente com uma cara tão patética e tão franzina, encolheu-se, incapaz de formar palavras, a atendente já impaciente perguntava quem estava ali com ela, e ela se perguntava quem estava ali com ela embaixo daquele teto tão alto e branco, Deus? – ela pensava, bom, eu não sei ao certo dizer pois já não tenho certeza, mas estava incapaz de formar as tais palavras, essa convenção que nos abandona nas horas mais impróprias, pois no fundo somos todos selvagens em pensamento, ela sentia que diminuía de tamanho até voltar aos nove anos, onde tudo parecia tão grande. A atendente buscava os olhos da moça atônita ou imbecil, que abria a boca muda sem aparentemente entender o que se passava, resolver perguntar novamente se ela estava acompanhada, ela pensava será que estou acompanhada, e os minutos pareciam passar vagarosos na sua cabeça e no seu ventre, estava trêmula. Foi até o recipiente de água, estava melancólica com suas galochas e o copo de água cheio ali na mão, pegou a bolsa e olhou para atendente, era um erro, tanto a vida quanto a morte eram erros, ela disse, e bateu a porta com força para dizer a si mesma que não voltaria mais ali.
     Ela sorriu, pois naquele momento acreditava que nunca mais precisaria das tais borrachas emprestadas, especialmente as dele.
     Sete meses depois da chuva, cortaram o nosso cordão umbilical, com tesoura e sangue me senti repartida e nunca mais consegui te entender e te adivinhar, nesse mundo de relações precocemente cortadas. Dizem que as crianças gritam porque o ar nos pulmões arde na primeira vez. Eu gritei porque doía, era dor, mãe, era dor. Dor daquelas borrachas não estavam ao alcance da mão.


Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto não gosta de ter hora para acordar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A política

     Certo de que estaria no lugar que lhe pertencia, meteu-se com um grupo de vereadores. Deu-se muito bem, mas muito bem mesmo no começo. Um cargo de secretário, uma indicação para um hospital, alguns parentes empregados, emprego para o filho mais velho, aquilo que sempre se consegue quando debaixo das asas certas. Mas aí veio a decisão de ele próprio ser o vereador.
     Mesmo com o conhecimento, ainda não tinha o seu lote. E muitos acharam que era uma petulância, uma afronta, ele agora querer ser vereador, Ele não consegue não, ainda é muito pobre, mas montou chapa, deu as caras. Não deu outra, cortaram o maluco. Levou três dias para montarem o corpo.
     Dez anos depois, foi o filho. Usou a morte do pai como campanha política. Fez barulho, carro de som, showmício, deu reboliço. Chegou a vereador. Um ano depois de trabalho estava sendo levado pela Cruz Vermelha para asilo político, Vamos matar você e sua esposa, branquelo filho da puta. No exílio, acabou indo pra Espanha, foi vítima do ETA. A esposa, quando retornou, não levou cinco anos para chegar à prefeitura. Primeira mulher na prefeitura assim, e linda, muito linda. Conseguiu a vida rebolando. De vez em quando uma boquinha, sobe-se na vida subindo a vida. E foi no que deu, dando. Conseguiu se formar prefeita, dois mandatos. Um outro de vereadora. Meteu-se com o governador. Foi governadora.
     Quis encaixar o filho. Mais um outro vereador. Fez que nem a mãe, mas fotos dele dando o rabo fê-lo ficar com a fama ruim, queimado. Um dia lhe entregaram até um hipoglós, é bom pras assaduras, vereador. Não conseguiu mais votos. Hoje é assessor. Passou a apoiar um grupo de moradores de uma comunidade nova na Avenida Brasil, tirava um do tráfico, depois foi um arrego para os milicianos. Souberam da treta, disseram que ele tava envolvido com o chefe de polícia. Outra foto dele dando o rabo, queimou ele, o policial e a mãe. Ela não conseguiu chegar à deputada. Tava quase lá.
     O policial que foi pego carcando veio com o slogan, Comigo não tem essa, meto o pau em qualquer um. Tornou-se o vereador mais votado daquele ano e ainda por cima descolou umas fotos na revista de nu masculino. Maior público votante feminino na história, um arraso. De vez em quando comia uma coroa e uma garotinha. Mas se fudeu quando uma de suas arregadas pegou ele comendo a filha mais nova, que era de menor, e o filho mais velho, viado que só, Porra, do que você gosta?, teve que responder por assédio sexual e pedofilia. Perdeu o cargo. Fez outro ensaio dentro da prisão, a filha ganhou destaque, fotos de capa, Olha a perna dessa garota, não deu outra, destaque de bateria da Salgueiro e vereadora por um partido novo. Conseguiu uma prefeitura, outra prefeitura, deputada estadual, acusada de enriquecimento ilícito, batida no apartamento atrás de provas, encontraram drogas. Ela gostava de um poteco. Quando descobriram que ela cheirava junto com os filhos, Gente, somos modernos, isso não faz mal não, foi enquadrada, perdeu mandato, quem ganhou foi a empregada, não era bonita, nem feia, normal, muito normal, mas foi vitimizada, não suportava ter que ver aquelas cenas todos os santos dias, Como alguém pode suportar isso assim?, É pelo dinheiro, moço, eu preciso sustentar meus filhos, você queria que eu dissesse o quê? É errado, eu sei, mas ela era minha patroa. Mídia corrosiva, ela também ganhou para vereadora. Veio contra as drogas e pela educação. Ela e mais vinte. Só ela e mais três ganharam. Dez anos depois, a primeira mulher presidente a vir das classes inferiores.


Publicado por Márcio Calixto.
Márcio Calixto está escrevendo a versão de Maquiavel para crianças.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O cracudo - Parte I

     Na esquina da Major Ávila com Conde de Bonfim, em frente à Praça Saens Peña, havia um
sebo. Na parte da manhã, Raphaelly tomava conta da banca; a partir das duas da tarde, Mércia e Seu Antônio estavam lá.

    Raphaelly era a irmã mais nova. Usava óculos, tinha cabelos longos, lisos e castanhos; a pele parda bem pálida. Gostava de usar roupas levemente largas, pois se sentia mais confortável é que com roupa mais larga eu não fico empacotada dentro da roupa e eu tenho peito e tenho bunda e fico aqui sozinha na banca pra ficá ouvindo gracinha .Ela vendia mas não comprava. Isso era com a irmã.
    Mércia Carmem Lira era quem administrava o sebo. Determinava os preços de compra, venda e troca. Nem seu Antônio Ribamar Lira se metia nisso. Ela também usava óculos. Tinha um pouco mais de um metro e sessenta de altura – sendo uns cinco centímetros menor que a irmã -, magra e só tinha barriga devido à postura. Tinha bunda para dentro e ombros fechados. No rosto, um sorriso sem graça.
    Seu Antônio já era carioca apesar de ter nascido no Maranhão em 1952. Tinha cabelos grisalhos e a calvície o havia deixado com o cabelo ralo. Vendia e organizava os livros.



Publicado por Pablo Garcia.
Pablo Garcia começou uma nova novela e quem está acompanhando é a Luiza, que voltou do Canadá.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Conhecimento nunca é demais

- Fiquei intrigado com isso, Bete. Descarreguei mais de meio pente nesse cara e ele continuava andando na minha direção como se uma Glok 17 fosse uma pistola de água.
Bete riu da comparação e levantou o lençol. O corpo de um homem caucasiano de não mais de trinta anos estava inerte na mesa de autópsia. Possuía porte atlético, cabelos castanhos claros à altura do ombro e uma leve barba cerrada. Seu peito estava crivado por nove orifícios causados por projéteis calibre 9mm da pistola do policial Marcos Oliveira. Que tentou efetuar sua prisão quando invadiam um vídeo bingo clandestino em Copacabana durante o início da noite.
O homem, que sete horas depois do ocorrido, devido à ausência de documentos, digitais ou da adiantada hora da madrugada, ainda não havia sido identificado, estava em um canto mal iluminado na terceira e mais afastada sala onde funcionavam os jogos. Encontrava-se ajoelhado ao chão por cima de uma mulher. O agente Marcos percebeu muito sangue no chão e os olhos vidrados da vítima que se movia em pequenos espasmos, identificando que havia sido atacada há mais de 10 minutos.
Ao efetuar a voz de prisão, o homem não tomara consciência da presença do agente, foi somente quando teve seu rosto iluminado pelo foco da lanterna que se apercebeu da presença de mais alguém no recinto.
Marcos o viu levantar-se. Os olhos estavam avermelhados, seu rosto, mãos e roupas estavam banhados com sangue da vítima, que ainda tinha espasmos enquanto jorrava pequenos filetes de sangue pelo pescoço, seios e braços.
O homem olhou para Marcos e se levantou. Seus dentes eram pontudos como se tivessem sido limados. Mas o que impressionou o agente foram os caninos de comprimento bem superior ao normal. O homem fez menção de que caminhava na direção de Marcos. Seis metros os separavam, e uma faca de caça rodou entre os dedos de sua mão espalhando pequenos filetes de sangue da mulher nas telas das máquinas próximas.
O agente o mandou largar a faca e deitar-se no chão. O homem parecia não ouvi-lo e esticou uma das pernas passando por cima da mulher. Sua intenção clara. Iria atacá-lo. Marcos não hesitou. Mirou no peito e deu o primeiro tiro, mas, para sua surpresa, o homem pareceu não ter tomado consciência deste. Um segundo disparo e o que se seguiu deixou Marcos perplexo. O sangue que saía do ferimento da segunda bala espirrou em um grosso esguicho para o lado caindo por cima do corpo e rosto da mulher no chão. O homem sorriu e continuou indo em sua direção. O agente que havia saído da academia há um ano não acreditava no que via e, talvez por impulso ou inexperiência, fez sua arma explodir mais sete vezes enquanto recuava para fora da sala, até que viu o homem finalmente cair de bruços no chão.
Todo o ocorrido já constava no relatório que Marcos fizera após o incidente. Uma cópia estava disponível para a Dra. Bete há algumas horas. Os dois eram amigos antes de ingressarem na Polícia, e Bete não duvidava da palavra do agente e tentava, como médica, lhe apaziguar os ânimos ao mesmo tempo em que tentava entender o acontecido.
***
- Olha Marcos, existem várias explicações para isso. Ele poderia estar sob o efeito de alguma droga. Heroína pode deixar o cara com a sensação de invencível.
- Não, Bete, não acharam heroína nele. Ele estava limpo. E aqueles dentes? Como pode isso?
Ela abriu a boca do homem mostrando-lhe os dentes.
- Olha aqui. Tá vendo? Foram limados. Tem dentistas que fazem estas coisas. É só pagar bem.
- Tá, e aqueles caninos?
- Implante de porcelana. Toma.
Marcos olhou para os dois dentes na palma de sua mão.
- Porcelana? Então ele implantou os dentes de vampiro, Bete. É isso?
- É. – Ela pegou os dentes de volta e os colocou em cima da bancada a seu lado.
- Quer ver outra coisa estranha? – disse a mulher.
A legista foi até um armário e apanhou uma pequena lanterna.
- Olha, Bete, esse cara era um maluco, ok. Mas não explica como ele resistiu a nove tirou de 9mm sem um colete. E o que ele fazia com aquela mulher? Meu deus, ele estava lambendo o sangue dos ferimentos dela.
Bete olhou para a bancada do outro lado da sala onde se encontrava o corpo da mulher ainda coberto por um lençol, suas mãos manuseavam a lanterna enquanto falava.
- É, eu ainda não a olhei direito. Parece realmente que morreu por causa dos ferimentos no pescoço que laceraram sua veia e artéria. Bem, isso é uma lanterna de UV, eu uso pra procurar alguns tipos de marcas. Daí, coloquei nele e olha só o que aconteceu.
A médica direcionou a lanterna para a coxa do homem que, instantaneamente pareceu queimar com a incidência dos raios UV.
- Tá vendo? Eu nunca tinha visto uma queimadura com UV aparecer tão rápido.
- Tá, e o que isso significa? Você é a médica, eu não.
- Um processo inflamatório muito intenso a radiação. Parece porfiria, mas de reação imediata. Portadores de porfiria desenvolvem alta sensibilidade à luz, em especial luz do Sol devido à radiação UV, pois tem a pele com baixa pigmentação de melanina. Você ficaria queimado também se ficasse uns cinco minutos sob a luz, mas a queimadura só seria percebida depois de algumas horas, assim como se tivesse passado um dia de sol forte na praia sem protetor.
- Tá. E as balas?
- Adrenalina. Quando chegou aqui coletei um pouco de sangue. Ainda estava líquido nas artérias. Ele tinha um nível de adrenalina muito mais elevado que qualquer nível normal. Como se tivesse injetado uns 10 ml direto no coração. Isso pode tê-lo feito resistir às balas. Provavelmente, quando era vivo, tinha um metabolismo incrivelmente acelerado.
Marcos sentou-se na cadeira próxima enquanto Bete lhe explicava o funcionamento da adrenalina no organismo humano.
- A adrenalina diminuiu a circulação periférica do sangue, impedindo que faltasse fluxo no cérebro e coração dele.
- E isso o deixou insensível às balas.
Marcos riu da sua própria afirmação. Bete o olhou visivelmente irritada. Mas deixou passar.
- Olha, Marcos, nenhum dos seis tiros atingiram o coração.
Continuou a médica olhando para o corpo na bancada.
- Foram nove. Bete.
- Não, foram seis. Olha aqui.
Marcos olhou para o peito do homem incrédulo. Ali só tinham seis marcas de perfuração.
- Mas eu dei nove tiros, Bete, eu sei disso.
- Marcos, aqui só tem...
O homem havia se levantado e pulado da bancada, fazendo a maca metálica que antes continha seu corpo ir ao chão com um barulho estrondoso. Bete caiu sentada no chão em estado de choque com o que via. Marcos, que também havia caído tentou se colocar de pé, mas recebeu um chute no estômago do homem. Seu peito ainda possuía quatro marcas das nove balas. Outro chute acerta as costelas de Marcos, que sente várias delas sendo quebradas. O homem se vira para Bete e em dois passos a alcança levantando-a violentamente do chão, fazendo-a deitar sobre a bancada. Sua esclera avermelhada chamava atenção, e os dentes pontiagudos sorriram maliciosamente.
- Obrigado, doutora. Eu poderia ter levantado antes, mas confesso que fiquei curioso em entender mais sobre minha natureza. É difícil a compreensão do que se é quando seus iguais não se dão muito bem. Mas, graças à senhora eu entendo um pouco agora. – Disse o homem. Ele pega seus caninos na bancada e os observa em sua mão.
- Não prometo que não vai doer, pois você tirou meus caninos. Custa muito dinheiro fazê-los. Mas vai doer menos do que no seu amigo.
Bete olhava os dentes limados bem de perto quando ouviu um tiro, depois outro e outro. Marcos estava ainda deitado no chão, mas seu ângulo de tiro era bom, não colocaria Bete em risco. Mais dois tiros. O homem grita, e larga a médica em cima da bancada correndo em direção ao basculante na parede oposta. Seu corpo ganha incrível velocidade até se chocar contra o vidro e metal praticamente arrancando-o da parede caindo do lado de fora ganhando a madrugada.
Os dois mal podiam acreditar no que viram. Bete se levanta da bancada para ajudar Marcos a sentar-se na cadeira. Suas costelas e queixo doíam muito. Bete deixou marcos na cadeira e saiu para procurar ajuda.
Eram mais de três horas da manhã, e o IML Afrânio Peixoto da Avenida do Gasômetro fica quase deserto neste horário. Bete correu pelo corredor na direção da sala de recreação do outro lado do prédio, onde alguns policiais deveriam estar.
Sentado na cadeira, Marcos ainda relutava em acreditar naquela noite. Quem ou o que era aquilo? Um vampiro de verdade? Era surreal demais para se acreditar. Pensou no relatório que teria de fazer e no pedido de psiquiatria que seu supervisor o encaminharia. Uma mão de mulher toca com delicadeza no seu ombro, Marcos se vira para falar com Bete e vê ao seu lado, a mulher que foi dilacerada pelo vampiro. Seus olhos possuíam a esclera avermelhada como os olhos do homem. Suas unhas apertaram-lhe o ombro e rasgando a pele, sua boca tinha hálito de sangue podre, e Marcos sentiu seus dentes, muito perto, e viu sua arma ainda com três balas em cima de outra bancada, muito longe.



Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez ficaria numa crise existencial terrível caso tivesse que dissecar alguém de sua espécie a serviço do governo.

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