Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

sábado, 28 de novembro de 2009

O colapso do universo

     Ragnarok, ou "crepúsculo dos deuses", na mitologia norueguesa, começa quando a Terra é vítima de uma terrível onda de frio. O próprio céu congela, e os deuses perecem em grandes batalhas travadas contra serpentes malignas e lobos assassinos famintos. A escuridão eterna se abate sobre a Terra exposta e congelada, e o Sol é devorado, apagando-se. Odin, o pai de todos os deuses, finalmente cai moribundo, e o próprio tempo para.

     Estava tudo pronto para o maior êxodo que a espécie humana já conhecera. Em poucas horas, bilhões de anos de evolução seriam levados a existir em outro lugar, longe o suficiente para arrancar de nossa Terra a energia que nos mantém existindo, mas perto o suficiente para que o tenhamos encontrado a tempo de sermos salvos.
     Enquanto bilhões de mentes divagavam ao sabor das eras de um passado glorioso, a partida da humanidade e seu legado começara.
     Muitos se olharam sabendo que é chegado o momento da grande viagem e, em seguida, olharam para seu moribundo e frio lar. Era, enfim, chegada a hora. Consumindo inicialmente um décimo da energia planetária, o show de luzes e efeitos visuais naturais do gasto de energia encantaria qualquer um no passado, mas não mais aqueles, pois sabiam a perda que tal beleza lhes impingia. O consumo de energia foi se intensificando a cada hora, até que, por volta dos 1019 quintilhões de elétrons-volts, uma pequenina escuridão apareceu no centro de espaço iluminado pela energia colossal desprendida. O frio se intensificava minuto após minuto enquanto a morte rondava. Em algum lugar, vozes recitavam, como se fossem mantras, palavras de vultos históricos nunca esquecidos:
     “Descrevo meu desespero irredutível ao saber que nenhum fogo, heroísmo ou intensidade de pensamento ou sentimento é capaz de preservar uma vida para além da sepultura. Todos os trabalhos de eras, toda a devoção, toda a inspiração, todo o brilho intenso do gênio humano, estão condenados à extinção na vasta morte do sistema solar; e todo o templo das realizações humanas terá inevitavelmente que ser enterrado sob os destroços de um universo em ruínas1".
     Longe da comoção, mas perto da esperança, olhos humanos observavam uma tênue fileira de minúsculos brilhos decolarem de uma área vazia distante do local iluminado dirigindo-se cada vez mais velozes para o local onde muitos aguardavam. As naves microscópicas dobravam sua velocidade a razão de milissegundos, ao passo que em pouco tempo não podiam ser mais vistas. Somente um facho de luz contínuo agora era distinguível. Como um antiquado feixe de laser, as micronaves enfileiradas – agora com velocidades próximas à da luz – seguem atravessando o espaço iluminado em direção ao pequeno ponto escuro no meio daquele imenso gasto de energia e, tão rápido quanto se pôde ver, desapareceram ao atravessá-lo. Para os que ali ficaram, só resta agora perecer em meio ao frio intenso causado pela entropia de um universo agonizante.

     Do outro lado da passagem agora fechada, as pequenas naves se agrupavam para, finalmente, ser dado o início ao que foram devidamente programadas, e uma pequena e estéril lua próxima ao ponto onde as naves apareceram serviria com perfeição. No tempo mensurado pelas próprias máquinas como alguns dias, a pequena lua havia desaparecido. As micromáquinas, agora aos milhões, partem incansavelmente em seu trabalho rumando para uma nova lua, sendo então, bilhões. Outra em seguida, passando a quadrilhões... Aos poucos, todo o sistema planetário reconhecido como estéril de formas de vida se acaba, sucumbindo diante de um exército incontável de máquinas microscópicas. O tempo mensurado até atingirem seu objetivo não foi longo, mas, sim, incomparavelmente ínfimo em relação ao que originou naturalmente os criadores das minúsculas máquinas. Em um sistema planetário próximo, onde as condições estabelecidas em suas programações se satisfizeram, as máquinas finalmente pararam e se estabeleceram. Ali encontraram um planeta azulado que se assemelhava ao que foi deixado para trás sucumbindo ao frio. Usando-se então dos recursos captados ao custo da extinção de um sistema planetário inteiro, máquinas maiores e de funcionalidades distintas foram criadas, a atmosfera é modificada e preparada, e é erguida a primeira construção. Nela, algo inimaginável por qualquer um antes da era da iluminação científica está acontecendo.
     Em um tubo de silício, uma diversidade de elementos químicos eram manipulados e unidos. Aos poucos, se combinavam, se desfaziam e se recombinavam, e recriavam algo que já existiu há muito tempo em outro universo, uma pequena célula viva. Com o tempo, a célula cresceu e se reproduziu. Passou por diversas etapas embriológicas e cresceu cada vez mais até que, enfim, durante o amanhecer de um novo dia, um ruído nunca antes propagado pelo ar daquele universo finalmente ecoou. Sem excitação ou emoção, e com a precisão do conhecimento de seus criadores acumulado por milênios, as máquinas ouviram o choro do primeiro humano a nascer em um universo totalmente novo, consolidando, finalmente, o pensamento de um dos mais importantes expoentes históricos e científicos do passado da civilização. Gravado nos bancos de memórias das máquinas responsáveis pela guarda do conhecimento humano, ainda se pode encontrar a frase dita por Charles Darwin:
     “Acreditando, como eu acredito, que o homem em um futuro distante será bem mais perfeito do que aquela criatura que atualmente é, para mim é intolerável pensar que tanto ele quanto todos os outros seres conscientes estão condenados à completa aniquilação, depois de experimentar um progresso lento e de longa continuidade".
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1 Uma das passagens mais deprimentes da língua inglesa foi escrita por Bertrand Russel, que descreveu o "desespero irredutível" que sentiu ao pensar no futuro distante.

Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez tem sempre que puxar a brasa para a própria sardinha.

1 comentários:

Raquel disse...

Nossa...Conseguiu causar impacto com a frase do papai Darwin!!! Adorei meu Amore.

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