Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Bolhas de sabão

      A brisa passeava morna pela varanda, num fim de tarde púrpura dos últimos dias secos da primavera. O sol deitava-se nas colinas ao longe e tingia as nuvens com os tons das flores que murchas caíam no jardim à sua frente. Acima e abaixo, um tapete de cores que desbotavam aos poucos, o céu como uma abóbada refletindo dançantes os matizes lentos do mundo.
      Sentado com seu cigarro e seu filho, sentia o peso dos anos descendo com o entardecer, e pegou-se pensando no passado, um daqueles erros necessários que nunca aprendera a corrigir. Todas as merdas que fez, que não foram poucas; todas as injustiças que sofreu e as pessoas que o sacanearam, estas muito mais numerosas; lembrava da maioria com mais tristeza que rancor, e de muitas delas com a indiferença que só a distância traz. Como velhas feridas, amigos e desgostos, que perdem o sabor doce e amargo com o tempo. Como as cores no céu e nas flores.
      Olhava pro filho, que soprava bolinhas de sabão, e não podia deixar de se sentir um pouco feliz por ver que ainda era muito novo pra se arrepender de qualquer coisa, e um pouco de dor por saber que o tempo ainda lhe traria aquele malfadado embrulho, esse gosto azedo da vergonha no fundo da boca, depois que engolisse nós na garganta demais, como ele. Sua vez chegaria, e não podia fazer nada a respeito. Podia aconselhá-lo, mas nada disso era novo para a humanidade, não descobrira nada, tudo já havia sido contado antes para todos os jovens antes dele e para ele inclusive, e, como jovens que foram e que são, nenhum deu ou dará ouvidos quando a verdade acenar ao longe e do alto, parecendo velha e ranzinza. Todos o fizeram, e o menino o fará também.
      Percebendo o olhar demorado do pai, interpretou o melhor que pôde a expressão grave e cansada e estendeu sua diversão, generoso.
      — Pai, quer soprar?
      — Não filho, obrigado.
      Continuou então a analisar cuidadoso as trajetórias errantes e as curtas vidas das bolhas, e perguntou:
      — Pai, olha essas cores! Porque as bolhas têm essas cores estranhas, e elas ficam se mexendo?
      Ele pensou por um momento, e disse:
      — Você já viu uma foto do planeta nos seus livros da escola, do espaço?
      — Já!
      — Então, lembra das nuvens e dos oceanos, como parecem? As bolhas são como cópias da Terra, mas planetinhas pequenos, e as cores são as nuvens e as correntezas do mar. Mas como elas duram muito pouco, tudo lá é mais rápido, muito rápido, e eles se movem assim, depressa demais, até que eles estouram.
      O menino ficou por um segundo olhando as bolhas com os olhos arregalados, mas logo sacudiu a cabeça e riu.
      — Pai, eu não sou bobo! Eu não acredito nisso!
      E ainda rindo da ingenuidade do velho, levantou-se e entrou, abrigando-se da noite que logo surgiria.
      Sozinho, agora sem o filho nem o cigarro, pegou o potinho de sabão e soprou ao vento. Olhava as bolhas e lembrava do que disse, imaginando cada uma delas como pequenos mundos, universos paralelos. Novas chances, novos passados, onde as coisas teriam acontecido diferente. Onde não houvessem tantos erros, seus ou de outros.
      As cores corriam fluidas em suas delicadas superfícies, parando e morrendo, como no céu, como no jardim. Reflexos distorcidos, mundos que nunca foram nem nunca seriam.
      Estourou algumas, possibilidades de resultados que rejeitou. As restantes, assistiu sumirem carregadas pela brisa morna, como promessas que nunca se cumpririam.


Publicado por Roberto De Nigris
Roberto De Nigris espera conseguir escrever mais nas férias

3 comentários:

Eloise Porto disse...

Ácaros! Ácaros!
Queremos ácaros!

Beto disse...

Não me atreveria a tocar em assunto tão tabu quanto ácaros sem uma pesquisa apropriada antes.

fred griman disse...

UAU! quanta poesia, quanta melancolia...Muito bom!!!
Tem mais profundidade nos dois primeiros parágrafos do que em tudo que já escrevi.

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