Eu caço como todos os outros.
Eu fico à espreita. Sempre. Meus olhos foram treinados para isso.
Eu observo detalhes, que passam despercebidos na maioria das vezes.
Mas são os tons que me chamam a atenção, não as palavras. Pois palavras, nós sabemos, são inócuas na maioria das vezes, só os tolos não o sabem.
Eu sei ouvir silêncios.
Eu optei por fazer disso um simulacro, você sabe. Mas você gosta. A sua cabecinha doentia. Você pede por isso. O seu problema é que você se despreza muito. Eu também. No fundo, bem no fundo, eu te desprezo. Mais do que qualquer outra pessoa.
Mas me divirto, tenho que admitir.
Algumas vezes. Outras, me canso. Já me canso agora. Por isso, precisarei partir. Porque não sinto mais a falta.
Porque já tirei tudo o que poderia tirar de você. A tua dignidade, os teus mistérios, o teu gozo, o teu sangue, a tua paz.
Hora de ir.
Hora de não deixar nada para trás.
Hora de soprar as ilusões e virar o copo, as apostas acabaram. A caixa em formato de coração é vazia – só existe a caixa, e não o seu conteúdo, e você sabia disso, e você escolheu isso, como você pode fazer isso consigo mesmo, eu tenho até pena.
Acho que já sei.
Você acreditou nas mudanças. Mas você é realmente um imbecil.
As pessoas sempre acreditam em mudanças. O relacionamento é, basicamente, a esperança de mudar o outro e moldá-lo a sua forma. E, claro, hipocritamente, dizer a todos, até a si mesmo, que aceita o outro como ele é.
Deixa eu te contar o segredo.
O outro não existe.
Era só uma ilusão.
Você sempre esteve sozinho, e sempre estará. Não perca seu tempo tentando mudar algo que sequer existe.
Claro, você ainda pode casar, ter filhos. Viver. Tente de novo.
Mas nada acabará com tuas cicatrizes. Nada calará o abandono, a rejeição, a sensação de fracasso. Nada calará o estilhaçamento. Nada colará aquilo que foi quebrado.
Eu poderia ser uma criatura piedosa. Mas não sou. Eu poderia mentir e ficar, e nunca partir. Mas não é essa a opção. A melhor. O mundo sempre nos espera. E com ele, as emoções novas de novas descobertas. Novos cálices. Novos torpores. Novos prazeres. Novos cortes.
E quando eu for embora, levarei a tua alma e deixarei o vazio de conviver com a ausência do meu corpo, das minhas loucuras, das minhas navalhas. O meu corpo continuará em outra parte da cidade, que você não alcançará nunca mais, pois não atenderei nenhum dos seus chamados. Continuarei existindo e optando por não estar com você, abafando a minha secreta satisfação de te fazer sofrer em silêncio.Porque eu dou o desejo, porque eu sou o desejo, e não me sacio nunca. Eu caçarei outros.
Eu não me sublimo.
Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto está sempre desatualizada.


Porra, muito bom. O melhor dos teus, na minha opinião.
Cheio de verdades.
Olha que nem é sobre ácaros.
Foda.
Esse texto é foda.
Esse texto é muito foda.
¢∆®@£#Ф, já falei que esse texto é foda?
þựক@qµ€φǻŘỉμ.
É lindo mesmo!
Elo, o que vc anda tomando?
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