quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sniffer, sniffer, sniffer

     Em 1994, os aparelhos de CD já haviam colocado em andamento seu plano de dominação. Os discos de vinil não se encontravam mais em qualquer lugar, e por isso mesmo, eu tentava comprar quantos pudesse.

     Eram ainda comuns as fitas K-7, pois embora a popularização dos leitores de CD estivesse razoavelmente avançada, seus gravadores viam-se restritos a estúdios e copiadoras industriais – em verdade, não me lembro se os domésticos existiam, mas de toda forma, seriam caríssimos, inacessíveis. Na ocasião, eu cultivava um fascínio quase obsessivo pelas faixas raras de minhas bandas favoritas; as canções que não eram lançadas nos álbuns oficiais ou que só haviam sido executadas uma vez, num show no Marquee no início da carreira ou num programa de rádio na Holanda dias antes do grupo acabar. E como até os bootlegs em LP se tornavam escassos à mesma proporção de suas lojas, a compilação caseira dessas faixas em fitas era um trabalho artístico-investigativo; arqueológico-religioso.
     Eu fora informado sobre um lugar recentemente aberto, tão perto de minha casa a ponto de ser possível ir a pé, então rumei para lá. No caminho, uma combinação inflamável de ansiedade e euforia me empanturrava, pois eu era confiante de que teria sorte em descobrir alguma relíquia de valor inestimável, porém, ignorado pelo seu proprietário – estes se ofereciam como os melhores casos: quando se comprava muito em conta, até na banca de promoção, às vezes, uma obra de grande importância, coisa relativa. O trajeto cumpria passar pela área conhecida a minha infância como Campo do Bumba, local onde se realizavam grandes peladas e que aos sábados abrigava a feira na qual se bebia ainda caldo de cana de caminhão servido naqueles cones de papel em base de alumínio. Frequentemente viam-se no Bumba festivais de balões, e até para um campeonato de motocross o campo foi usado como pista. Mas havia muito, aquele espaço já se utilizara na construção de uma escola estadual. E conforme eu chegava a um antigo prédio do TRE – em cujo estacionamento meu pai me costumava levar para ensinar a soltar cafifa, o que por aí chamam empinar pipa –, as recordações iam-se dissipando; davam lugar a minha tradicional frieza de negociador.
     A loja era só uma porta. Uma salinha no meio do andar térreo do pequeno edifício desocupado – a zona eleitoral se transferira para o centro havia pouco. Largamente aberta para dentro e presa por um saco de areia feito com jeans, a porta era um convite a entrar sem bater.
     As coisas escapam por entre nossos dedos e não há o que se possa fazer. É a maneira como o sólido muda para o gasoso e temos a impressão de que perdemos algo no meio do processo, quando já é tarde. Aquela caminhada me fez pensar que as coisas acabam, mas dão lugar a outras, ainda que ao nada, pois mesmo este é uma coisa; é um lugar. Há um álbum do U2 cujo título e a capa sugerem que o coração é tudo o que não podemos deixar para trás. E ao me ver pela primeira vez dentro daquela nova loja de coisas velhas e ultrapassadas, aquelas estantes de metal cinza galvanizado exibindo agonizantes punhados de discos e fitas, jurei que seria minha última busca, pois percebi que minha obsessão era uma forma desesperada de me apegar a mim mesmo. E que eu conhecia a dona do estabelecimento.
     Ela chorava atrás do balcão. Sentada sobre o piso frio, lutava para acender o cigarro e lia pela nonagésima vez um jornal velho que a lembrava daquilo que perdeu. Tentava se agarrar a qualquer coisa, qualquer pedaço dele que a fizesse sentir alguma ligação material, por menor ou mais breve que fosse. E no impulso de quebrar aquele ciclo viciado, perguntei por uma canção.
     - Você tem “Sniffer, sniffer, sniffer”?
Por um segundo, ela parou de chorar, encarando-me com expressão de quem não acreditava que eu fora capaz de perguntar por aquilo do que só eles dois sabiam, pois era a canção que ele havia feito para ela. E transformando-se da estática para a fúria como quem perde algo pelo meio do processo, pôs no máximo a chama do isqueiro e num ataque histérico incendiou os próprios cabelos, derrubando as estantes e quebrando os discos e fitas com sua dança demente antes de me atacar como um furacão insano, empunhando ainda o jornal amassado. Eu a acalmava ao mesmo tempo em que apagava o fogo.
     Em silêncio, nos abraçamos sentados no chão e encostados à parede. De repente, ela entendeu por que eu conhecia a canção. E percebeu que não havia mais motivo para chorar.

Publicado por Carlos Vinicius Ribeiro.
Carlos Vinicius Ribeiro desempena, tira arranhões e desmagnetiza sem cobrar visita.

1 comentários:

Elisangela Batista Barbosa disse...

Excelente!!!
Adorei o texto assim:

Achei graça da obsessão, conheço seu tipo de gente (sorriso fechado).

Viajei por aqueles tempos narrados através de coisas, eu era (mentira, ainda sou) louca por caldo de cana naqueles copinhos de papel (saiba que conheço um lugar onde ainda servem suco de laranja, com gosto dos de antigamente, nesse copo de papel!), e fui acolhida por uma nostalgia doce (sorriso aberto).

“As coisas escapam por entre nossos dedos e não há o que se possa fazer. É a maneira como o sólido muda para o gasoso e temos a impressão de que perdemos algo no meio do processo, quando já é tarde. Aquela caminhada me fez pensar que as coisas acabam, mas dão lugar a outras, ainda que ao nada, pois mesmo este é uma coisa; é um lugar.”
Eu, achando muito verdadeiro isso, e fazendo cara de muito reflexiva (sem sorriso).

Até que a moça da história toca fogo no cabelo! Foi tão como você escreve que tive aquela sensação engraçada de quando a gente reconhece alguém em alguma coisa, sabe como? Pensei, é ele, tinha que ser ele, tinha quebrar, incendiar, destruir! (risadas).

Ótimo poder ler o que escreve, e ser lida por você!
Beijos,
Elis