Ele sempre partia, ele sempre precisava partir.
Não que se envergonhasse. Pelo contrário. Gostava do que fazia, o sacerdócio de poucos. Sempre acreditou no processo de criação da sua obra, executada como uma sinfonia – afinal de contas, não era modesto, mas extremamente inteligente.
E se algumas pessoas evitam o lado sombrio da vida e das ruas, ele o cultuava, pois ali reconhecia seu verdadeiro habitat.
Às vezes se disfarçava e conseguia se camuflar sob as sombras da noite. Pairava quase como algo irreal, fugidio – manipulava os olhos dos humanos que o seguiam quase como um mágico. Essa percepção de confundir-se e desaparecer como um delírio ou miragem era um dom especialmente natural – o que fez dele um desconhecido estranhamente marcante, se é que essas duas palavras poderiam estar na mesma frase.
Mas nada mais era estranho.
Preferia sextas-feiras. Relaxava. Sentia quase que inconscientemente o cheiro de algo se movendo por perto. Um arrepio lhe corre a espinha. Vai acontecer de novo. Vai acontecer novamente. Ficou pacientemente esperando o momento de emergir, triunfalmente, das sombras. Sua entrada em cena era dramática. A coadjuvante ainda não sabia.
Se a intuição não fosse tão falha, a presa poderia correr.
É preciso então, muita cautela nesse momento. Aproxima-se sem respirar, praticamente. Um movimento em falso poderia estragar o espetáculo, seria deprimente perder outra noite. Esta parecia mais escura e fria do que as outras.
Com um golpe quase felino, ele agarra a caça pelo pescoço e aperta com força, gerando o silêncio brutal. Resistindo aos últimos solavancos do corpo contra o seu, deixa tombar, quase feliz. O plano prosseguia.
O conceito de macabro sempre foi algo bastante flexível para aquela sombra. Palpável mesmo era a necessidade de ser famoso em silêncio, erguendo-se sobre a cidade, submergindo-a em seu próprio grito. Suas mãos habilidosas calavam a madrugada.
E, acreditando-se na posição do mais excêntrico dos maestros, orquestrava seus instrumentos.
O corte no abdômen expunha as vísceras.
Provavelmente, subtrairia mais alguns órgãos da caça.
E brindaria seu feito no dia seguinte, no jornal da manhã. De novo, ele, o rei da mídia.
Mas precisava partir.
Precisava sair dali – as negras ruas de Londres cheiravam mal, a sangue enferrujado, o torpor da própria sordidez quase paralisava a sua face, e, no mais, acabara de completar mais um serviço – já sentia o gozo de quase atingir a perfeição. Poderia, finalmente, ir embora, e pairar como dúvida e ícone do horror e do insólito na comedida sociedade britânica vitoriana.
Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto vota no Partido Niilista Brasileiro em 2010.


14:49
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5 comentários:
Alan Moore mandou dizer que está orgulhoso de você. E você sabe que ele não é de elogiar.
Ele é durão. Mas eu gosto dele.
Eloise, saudades de te ler!
Que maravilhosa narrativa!! Escrita muito bem e com uma história deveras intrigante. Gostei da forma como o ato repulsivo que fundamenta a ação da personagem principal é tratado sem julgamentos morais. A narrativa fluiu neutra, ao meu ver. O que conta muito, deixa um gostinho especial para a leitura.
Beijos!!!
Oi Bruna! Quanto tempo! Bom, fiquei mais de três semanas "parindo" esse personagem, justamente por conta da questão moral - foi um exercício difícil.
E ainda assim, fiquei na dúvida...
Beijos
Nesse texto te li como há muito não te via na lida do texto. Um texto simétrico, límpido e lindo. Um texto eloítico. Pórtico.
Uma maravilha.
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