Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Calor

      Era um homem simples de andar lento e voz baixa.
     Dizia não gostar de sonhar, acreditava que os sonhos são partes da vida que ao serem sonhadas se perdem, tinha certeza de que cada sonho que tinha era um pedaço de sua vida que deixaria de ser vivida, e ele nutria um amor muito grande por viver para deixar que isso acontecesse; dessa forma toda vez que sonhava acordava assustado e ficava sem dormir por dois ou mesmo três dias, assim, pensava, poderia viver um pouco mais sem ter que perder partes de sua vida para o seu grande inimigo onírico.

     No dia em que se passa essa história ele estava entrando no segundo dia sem dormir, havia sonhado há três noites que ficaria ainda mais pobre do que já era ao ver a pequena casa alugada em que morava cair num destes temporais de verão que assolam o Rio de Janeiro nos primeiros meses do ano. Acordou suando muito, com dores no lado esquerdo da cabeça e muita sede. Dois dias depois estava ele ainda sem dormir, não sentia muita fome e tomava banhos seguidos tentando amenizar um pouco o forte calor que fazia em São Gonçalo. Para ele esta cidade era uma parte do inferno na terra, se o inferno fosse mesmo do jeito que o pastor de sua igreja vivia dizendo, sem dúvida que São Gonçalo era uma pequena reprodução da casa do capeta, só assim para explicar tamanho calor e abafamento que faziam da cidade um local muitas vezes insuportável de se viver bem.
     Devido a esse imenso calor saiu de casa decidido a comprar um ventilador pequeno que pudesse refrescá-lo um pouco nas quentes noites do verão gonçalense. O dinheiro era pouco, mas devia dar, ele pensava, para o modelo menor e mais barato que estivesse a venda. Passou no boteco do Osmar, tomou uma dose de Velho Barreiro e pegou um varejo filtro amarelo fiado, depois seguiu seu caminho cantarolando um ponto de macumba. Pegou o ônibus para Niterói e em quarenta minutos chegava ao terminal rodoviário da cidade. Não costumava ir a Niterói, supria todas as suas necessidades em São Gonçalo mesmo, no fundo não gostava muito da cidade, muitas das noites passadas em claro eram preenchidas com recordações de Campos, sua cidade natal, era lá no interior que ele se sentia bem, se sentia mais ele, mais homem, mais humano. Já na cidade era uma sensação forte de impotência frente ao grande número de pessoas que andavam de um para outro lado feito bonecos sem vida própria, controlados por uma força desconhecida.
     Caminhava bem lentamente por Niterói, sentia certo medo de esbarrar nas pessoas, não gostava de se desculpar de nada, mas em certas atitudes que tomava, se fosse capaz de sentir, mesmo que bem remotamente, que podia estar sendo um estorvo para alguém, a primeira coisa que fazia era se desculpar, mesmo sem saber porque, pedir desculpas lhe dava uma sensação de alívio, conforto frente aos outros. Seus passos eram cadenciados, parecia que ele os ia contando, um a um, e que dessa forma seu caminho se tornava menos incômodo, sem chegar, no entanto, a ser satisfatório. Ao avistar o grande pavilhão chamado Shopping Center seu coração disparou, sentiu sua boca secar, o suor lhe escorria por todo corpo; era sempre assim quando se via em meio a qualquer multidão, sua fragilidade frente ao mundo aflorava.
     Ao entrar no Shopping um leve ar gelado o envolveu, sentiu os músculos relaxarem, uma leve onda de frescor percorreu todo seu corpo fazendo-o se sentir melhor, mais leve. Como não gostava do ambiente procurou avistar o mais rápido uma loja onde pudesse se refugiar e comprar seu ventilador. Olhou ao redor e viu uma livraria; achou-a bonita com seus muitos livros espalhados por estantes e balcões, ficou alguns instantes apreciando os livros dispersos pela vitrine, achou-os extremamente belos em suas encadernações, nunca havia lido nada a não ser a Bíblia Sagrada, e de maneira um tanto rude, já que frequentara a escola por pouquíssimo tempo, mas ler a Bíblia era parte de sua salvação, assim dizia o pastor, e por se achar um pecador procurava guardar seu lugar no paraíso com leituras do texto sagrado aos domingos pela manhã, antes mesmo de tomar sua primeira dose de Velho Barreiro do dia. Depois de apreciar a vitrine decidiu entrar na loja, mesmo sem ver nenhum ventilador; o ar gelado ficou ainda mais forte, mas agora ele suava, sentiu um leve tremor, a garganta voltou a secar, teve vontade de cuspir, de peidar, de gritar bem alto que não era feliz, mas engoliu tudo em silêncio, num silêncio constrangedor; então viu que uma bela moça altíssima se aproximava dele, trazia um sorriso barato estampado no rosto, cheirava a rosas e tinha os olhos extremamente azuis, como o céu de São Gonçalo nos dias de verão, sentiu uma vontade louca de mergulhar nos grandes olhos azuis da moça e quase não ouviu quando ela lhe perguntou o que desejava, por um segundo pensou que fosse cair, olhou para o chão como costumava fazer sempre que era interpelado por desconhecidos, viu apenas seus pés pretos e sujos metidos em suas sandálias de dedo também pretas e sujas e emitiu um som anasalado perguntando se tinha um ventilador pequeno, assim: e ficava tentando moldar com as mãos o modelo que trazia em mente.


Publicado por carlos henrique dos santos.
carlos henrique comprou seu primeiro ar-condicionado na Telerio.

1 comentários:

Eloise Porto disse...

Achei excelente..........

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