Há uma janela através da qual vejo muitas coisas, há janelas que cumprem bem o seu papel de porta a se abrir para o cotidiano dos outros. Essa fica de frente pra ladeira por onde passam pernas sempre fazendo força, por ordem da subida, por ordem da descida, porque é preciso.
De frente para a tal janela, uma construção que há muito tempo deve mesmo ter tido como fim ser casa, abriga como pode e a despeito das interdições da Defesa Civil, moradores: pessoas e animais.
Pois nessa manhã sabática, enquanto bulia aqui com a máquina, não me furtei de espiar o que ia lá fora, o que os outros poderiam estar vivendo a olhos vistos (que muito me interessa!), e tive a atenção capturada por um ritual muito feminino, muito necessário, o de se fazer as próprias unhas.
Nesses dias em que a inocência parece nascer sufocada pelo cordão umbilical e as meninas tomam ares de mulher desde muito cedo, o corpo guardando ainda movimentos e trejeitos infantis, ela aparecia de frente para minha janela, sondando o cheiro do ar. A menina que fazia as unhas do lado de fora da casa, banhada pelo sol, tomava para si ares de mulher ao esfregar meticulosamente o algodão umedecido em acetona nas unhas compridíssimas, cenho franzido.
Magra ela, magreza vestida em pele amarelada, tinha os cabelos mal-pintados, presos à nuca em forma de coque. Era longa, toda comprida, os ossos aparentes, quase tudo à mostra, tão pouca era a roupa. Sentava como quem intentava abraçar as pernas, olhando de quando em vez a rua. Abria e fechava pequenos frascos coloridos, as possibilidades de cores que habitariam nela, esfregando-os diligentemente entre as mãos.
Fazia as unhas dos pés e das mãos. O som do rádio ditava o movimento de seu corpo e houve um momento em que, sem se saber observada, movimentava o tronco de maneira a sacudir os seios em broto, e sacudia e olhava para eles por dentro do decote com curiosidade e prazer. Essas meninas!
Como são belas, e de que natureza são feitas para estarem assim sempre tão intensas?
Observe: meninas parecem poder algo que mais ninguém pode, cantam pela rua fazendo carinhas muito expressivas, falam sozinhas, sorriem para os outros sem necessariamente os ver, dançam por nada, fazem biquinho em público, choram de se espalhar em mil pedaços, se jogam dentro dos abraços, andam de mãos dadas com as amigas, são umas gracinhas muito misteriosas. Aliás, antes que me esqueça de perguntar, quem lhes deu essa liberdade toda de ser, de estar?
E ia pintando muito disciplinada uma a uma as unhas todas que tinha, parando um pouquinho, suspirando um pouquinho, dançando um pouquinho. Avaliava sorrindo a arte feita, pondo as mãos a secar para fora dos limites da mureta onde se apoiava, como num carro se põe as mãos para fora da janela, admirava-as. Levantava as pernas para ver de longe como ficara nas outras extremidades o trabalho acabado, e viu que era bom. Tomando para si algo de muito ancestral olhou para tudo que tinha feito, e tal qual deus viu que era bom.
Publicado por Elis Barbosa.
Elis Barbosa ainda engole barriga quando brinca de escravos de jó.


14:49
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3 comentários:
A SORRISO DA MONALISA
Em um canto escuro
Repousa um quadro.
Dentro dele, um sorriso aprisionado,
Enigmático, com sede de liberdade.
Testemunha dos mais salientes segredos
Das mais tristes revelações,
Da mais singela promessa
À mais cruel das desilusões.
Calado, paciente... aprisionado.
No coração do silêncio enfurecido ruge,
Exigindo tudo,
Até mesmo o que não mais lhe resta.
*Agamenon Troyan
Tinha esquecido de comentar este quando foi publicado. Mas é sempre bom te reler. Caramba: você parece pegar um pedaço de vida e analisar com aquele monóculo de avaliador de pedras preciosas.
Hahaha, mania de quere saber sempre mais, viver tentando tirar tudo que é possível dos pedacos de vida que vivemos e que podemos observar os outros viverem. Sou tarada por detalhes.
Beijos,
Elis
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