sexta-feira, 25 de junho de 2010

Trago pessoa amada em três dias.

     Do ônibus, Ana viu o anúncio colado em uma passarela na Avenida Brasil e, incrédula porém se sentindo desesperada, o anotou.
     Mãe Sebastiana era uma mulher idosa. Jóias pesadas e douradas adornavam suas orelhas, pescoço, pulsos e dedos. Ela se espantou ao olhar para Ana.
     - Minha filha, senta aqui. Posso ver você no passado. Você já foi muito bonita. A vida lhe fez tão mal assim?
Impressionada, Ana se senta na cadeira oferecida. Seu celular tocou. Ela olha e vê no visor a chamada < Elen – Amiga de Daniel >. Desligando o aparelho, ela começa a contar, como se em um psicólogo, o que passara nos últimos meses. As duas ficaram ali, naquela saleta adornada com motivos ciganos, jóias e cristais por horas ao longo da tarde. Mãe Sebastiana jogou suas cartas por várias vezes, consultou suas moedas de ouro, pêndulos, cristais e consultou seus guias espirituais. E, após horas de conversas, ocasionalmente acompanhadas por choro, a cigana cartomante se levanta, caminha até Ana e, olhos nos olhos, fala.
     - Minha filha. Sua dor é grande. Meus guias já me advertiram que será difícil, muito difícil esta tarefa que você me pede. As cartas me dizem que você é forte e que realmente deseja isso. Mas eu só posso ajudá-la, você é quem terá de realizar os trabalhos que lhe serão pedidos. É isso mesmo que você quer? Me diga.
Sem pensar, Ana respira fundo, olha para Mãe Sebastiana e lhe responde.
     - Sim, é ele o que eu quero. Eu quero ele de volta pra mim.
Mãe Sebastiana passou então a lhe dizer as regras do árduo trabalho que as duas tinham pela frente.
     A cigana lhe explicou que, pelo que as cartas lhe disseram, ele, o namorado que a garota queria de volta e que não via nem falava há dois meses, estava longe, e que para ele, Ana estava em outro mundo, longe demais do dele, e por isso seria tão difícil. As regras eram simples, Ana deveria se desfazer de tudo o que lhe lembrasse desse mundo, tudo o que a ligasse ao mundo em que ela vivia. Não poderia falar com parentes, ou amigos de qualquer espécie. Ana lhe entregou seu telefone, suas roupas, tudo o que lhe fazia lembrar do mundo fora da casa de Mãe Sebastiana. Para que não ficasse nua lhe foram dadas roupas simples e de tecido cru.
     Os trabalhos começaram tão logo Ana aprontou-se. Banhos de ervas, orações, bebidas ardidas e charutos banharam a saleta onde Ana ficou reclusa do mundo por dois dias. Durante este tempo, a cigana lhe falou por várias e várias vezes da dificuldade que estava encontrando para dissuadir o seu antigo namorado a voltar por seus próprios rumos e novamente amá-la. Ele parecia decidido quando foi embora. Ao final do segundo dia de trabalho, Mãe Sebastiana lhe falou que estavam finalmente conseguindo, que ele finalmente havia cedido e que, aconteça o que acontecer esteja ele onde estivesse, seu namorado voltaria e, em breve, todos poderiam vê-los abraçados.
     Ana, bastante debilitada, fora levada para casa no carro do sobrinho de Mãe Sebastiana. Ainda usava as vestes cruas da cerimônia, suas roupas e pertences perfeitamente dobrados e acondicionados em uma sacola voltaram consigo. Deitou-se na cama e dormiu profundamente. Seu telefone tocou por várias vezes. Recados de quase três dias em sua secretária eletrônica piscavam no pequeno LCD do telefone e na tela do computador dezenas de e-mails não lidos.
     Ana acordou por volta da meia-noite ainda cansada e debilitada pelo árduo trabalho dos dias anteriores. Sua campainha tocava insistentemente. Ela desceu as escadas, atravessou a sala indo até a porta. Ao abri-la, seu rosto se iluminou. Sentia como se todo o cansaço de sua vida houvesse desaparecido. Respirou profundamente e sorriu como há muito não fazia. Parado na porta a sua frente estava Daniel, seu namorado.
     Ana lhe abraçou sorridente. Um abraço forte e aconchegante, um abraço saudoso. Finalmente seu amor estaria com ela novamente. Daniel estava bastante sujo, como se estive muito longe e houvesse viajado muito pra estar ali com Ana novamente. Ela o puxou para dentro da sala e a porta se fechou atrás deles.
     - Nunca mais você vai me deixar? – Perguntou a garota.
O rapaz demorou a responder. Olhava-a de forma diferente, com um certo vazio nos olhos.
     - Sim, nunca mais vamos nos separar. – Disse ele, finalmente.
E Ana, sorrindo, o beijou.
     No momento seguinte, ela havia caído no tapete da sala. Seu pescoço apresentava um ângulo anormal para um ser humano. Durante a queda, ela arrastou um dos enfeites de mesa e o telefone ao chão. A secretaria eletrônica começou a tocar os recados gravados três dias atrás.
     < Ana, aqui é a Elen, a amiga do Daniel. Liguei pro seu celular, mas a ligação caiu e agora só dá desligado. Me liga quando ouvir meu recado, tá? É importante. >
     < Ana, é a Elen de novo. Me liga, preciso falar com você, é urgente. >
     < Ana, sou eu de novo. Olha, eu tenho que te falar uma coisa. Seu celular só dá desligado. Me liga, é urgente. >
     < Ana, é a Elen. É o seguinte, não queria falar isso assim, mas não consigo contato com você. O Daniel sofreu um acidente e foi grave. Ele está internado no Souza Aguiar. Me liga assim que receber esse recado. >
     < Ana, sou eu. Eu não sei o que está acontecendo com você, mas as notícias não são boas. O Daniel, ele faleceu tem uma hora. Não sei de muita coisa ainda, mas parece que o enterro será amanhã pela manhã. Não quero que vá sozinha. Me liga. >
     Deitada de costas no chão da sala, o rosto inerte de Ana esboçava um sorriso. Com o pescoço quebrado, sua cabeça estava virada para o lado muito além do natural. Ela parecia olhar fixamente para o outro corpo que jazia deitado a seu lado. Pela manhã, os dois foram encontrados ali, lado a lado, abraçados.

Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez dá consulta, joga búzios e, se for preciso, tranca os caminhos.

4 comentários:

Raquel disse...

Nossa Amor que história triste...
:(

Iara Harris disse...

Nossa .. realmente muito triste .. mas é linda .

Marrie disse...

Triste sim, mas mostrou a força do amor, ou seria a força dos trabalhos realizados pela Mãe Sebastiana? (...)

Érica Oliveira disse...

Realmente é bem triste, mas faz surgir a convicção de que para o amor nada é impossível . *-*