sábado, 17 de julho de 2010

A busca eterna pelo desafio

     Aprendi a viver de orgasmos. Não como uma puta (ambíguo), mas como alguém que gosta de respirar estando com os olhos arregalados. É engraçado como a nova, a busca por tal, me faz sair do prumo, do limítrofe, daquilo que me é tão comum hoje para poder fazê-la existir: a gana num eterno desafio. Por isso passei a buscar essa gana sempre quando ela não me é primaz, ou quando tão aqui, perto, ela me faz possível. É a necessidade da chance, daquela que não bate duas vezes na mesma porta. E como me houve no passado a perda em uma que possivelmente modificaria o caminho natural de minha carreira, preferi não dar pouca audição àquelas novas outras que me ocorrem hoje. Tornei-me ganancioso.

    Sei que para alguns, a ideia de ganância pode soar como a demonstração de uma equidade com o capitalismo selvagem, com a destruição, com a falta de ética, com o egoísmo. Porém, aprendi que quando se vive a ganância num sentido coletivo, torcendo pela vitória do próximo, pois sabe que de uma maneira ou de outra você também está vencendo, tudo parece ter um gosto mais amplo e melhor. Sei que posso ter declarado aqui o meu encontro com o egoísmo, mas às vezes ganância é isso mesmo: o encontro de egoísmos. Só que vejo por um outro espectro, o de que o egoísmo gerou a identidade por algo que comove, que impulsiona, mas nessa questão da identidade, no caminho, há sempre de se encontrar com outros que também estão se identificando com esse elemento que impulsiona. Não existe gana sem encontro com outros gananciosos, e a partir desse momento se percebem duas possibilidades: a da luta ou da aliança. Eu sou a favor da segunda. Sempre.
    Minha gana, no toque do óbvio, sempre foi pela literatura. Não busco a renovação, um novo perfil literário no mundo, com um novo estilo, nova confluência, nada disso. Eu luto mesmo é por sua manutenção, sem deixar que seja invadida por novas mídias – mesmo acreditando que elas não sejam capazes de vencer o livro de papel. Papel não precisa de atualização de software, não precisar recarregar, não vai desligar na parte do clímax, sempre vai me permitir ler a qualquer momento, nem ser vítima de um vírus de rede – traça se combate com limpeza, um paninho úmido, e não com o Norton ou AVG. E de antemão, uma estante cheia de livros, ao invés de chips ou cartões de memória, sempre será um charme. Por isso, sinto-me muito feliz quando vejo que um amigo meu, que cresceu na vida literária, começou num blog qualquer e hoje consegue lançar um livro. Li com muito amor o livro de Júlio César Correia e de Rodrigo Melo, na época lançados pela Bagatelas, mas que não voaram alto por causa da falta de recursos financeiros, mas os dois muitíssimo bons livros. Porém, um em especial, ÚLTIMO TREM, de Marco Simas, conhecido também como Antônio Mas, escritor de trama policial também na Bagatelas, hoje consegue lançar um livro. Fico feliz, pois é alguém que está há muito tempo buscando tal e hoje conseguiu. Vou militar por seu livro. Outro que me deixa muito feliz é o lançamento da amiga colunista do Trema Literatura, Beatriz Bajo. Ainda não tive acesso ao seu livro, mas já me passaram que é de uma leveza doce e ao mesmo tempo soca, violenta, esquenta, dá calor. Não à toa se chama Face do Fogo. Gostaria mesmo de ler essa parte que dá calor. Outra por quem vou militar também.
    Todas essas publicações me movem, dão-me energia para querer buscar que sejam lidos, que sejam conhecidos. Sou professor de literatura e me incomoda muito o fato de só premiarmos os que já morreram. Tudo bem, são os consagrados, nada se compara a Drummond ou Rosa ou Clarice ou Rachel de Queiroz. Mas podemos falar de Tezza, Altair Martins, Cecília Gianetti, Andréa Del Fuego e gritá-los a todos os ventos. E juntar a eles Simas e Beatriz Bajo. Essa sempre foi a minha ideia, um tanto megalomaníaca, eu sei, mas é o tom da minha gana. E isso me dá uma força, uma energia que se destoa um pouco dos textos que já escrevi sobre o humor que se ganha quando se torna marido e pai. Estou eufórico, torcendo por todas essas possibilidades. E que venham.


Publicado por Márcio Calixto.
Márcio Calixto passou a quebrar osso depois que ficou velho.

5 comentários:

Leo João disse...

Esqueçam Lair Ribeiro e afins. Texto motivacional, pra mim, é isso.

Sorte e sucesso a você e a todos os amigos da Trema!

Roberta Mendes disse...

Isso do prazer do livro...estou, por assim dizer, com amor novo. Descobri Fabrício Carpinejar recentemente e até agora não sei se sou eu quem devoro o livro ou se ele que me rumina. Na hora de colocar na estante, fiquei em dúvida se ia para a prateleira de contos/crônicas. Acabou na estante de poesia, que é o substrato de sua deliciosa prosa. Valiosa, portanto,sua dica dos novos autores (novos em termos editoriais, sem desprezar de cada um a longa estrada de percepção lírica das coisas que o próprio ato de escrever pressupõe). Em termos de literatura, sou poligâmica, mas não promíscua. Fiel a cada um de meus amores e, ao mesmo tempo, sempre disponível a uma emoção nova. Sou quimicamente dependente do prazer de ler. Você, que também vive de orgasmos, sabe bem do que estou falando: o prazer de ser tocado, mexido, instigado. Por dentro.

Márcio Calixto disse...

Então, minha querida Roberta, vai a dica, leia Canalha, do Carpinejar. E quanto a promiscuidade, sou a favor das experiências, para ter a chance de te dizer o que vale a pena ou não. A fidelidade sempre vem com o tempo de percepção que um dia se houve no excesso. E sempre busque o excesso, é uma dica.

PALAVRA EM FUGA disse...

"Canalha!" foi exatamente o segundo livro dele que li. "O Amor Esquece de Começar" vem comigo na viagem de férias, para compor o ménage a trois intelectual e proporcionar orgasmos múltiplos em plena Costa do Descobrimento. Aos excessos, então! Eu, fiel às suas dicas...;-)

Márcio Calixto disse...

Estou conhecendo esse pilantra agora, mas já me disseram que Mulher Perdigueira é de um toque para lá de valoroso...