“Se os homens nascessem livres, não formariam nenhum conceito de bem e de mal, enquanto permanecessem livres.” (Spinoza)
Alguma coisa naquela mulher atraiu meu olhar. Minha atenção voltou-se inteiramente para ela. Quando percebi, a seguia com olhos, mente e coração. De repente, ela era um paradoxo, completo, irreconciliável, inadiável.Procurei aproximar-me,devagarinho, sondá-la, conhecê-la, pelo menos, até onde me deixasse chegar.
Sua aparência, relativamente bem cuidada. Os cabelos, soltos, não estavam emaranhados. As mãos pequenas de unhas limpas e curtas, uma exceção entre tantas outras, enormes e sujas. A saia longa, estampadíssima, esvoaçante e transparente, exceto por duas camadas de forro, não combinava com a blusa, lisa, verde escuro, invernosa, de mangas compridas. Recatada, diria minha avó, ainda que não usasse calcinhas, de jeito nenhum, em circunstância alguma. Por vezes, descalça, por vezes de tênis, ela não parava de andar, pelo contrário, andava por toda parte, passo ligeiro como quem tem pressa, como quem, não tendo para onde ir, vasculha, explora a procura de um canto que possa chamar de seu. Andava no asfalto e sobre pedras; no meio da rua, à beira da estrada; mato a dentro, seguia todas as trilhas. Seu melhor passatempo, andar, andar, andar. O rosto bem magro, bem lavado, vivo, a pele clara, poderia até indicar que se alimentava bem, porém, como seria possível alimentar-se bem vivendo nas ruas?
Atração foi mútua. Ela gostou de mim, nem sei porque, jamais disse qualquer coisa. Mas sempre que eu chegava, como se me pressentisse, surgia logo depois, ligeira, entabulando conversa como se não estivéssemos fazendo nada diferente há horas, há dias. Nem sempre desconexa, sempre intensa, contínua, como se não houvesse pausas, muito menos ponto final.
Vivia nas ruas há anos, estava perfeitamente adaptada. Inadequada era eu, querendo consertar, amenizar, diminuir seu desconforto, suprir suas necessidades, encaminhá-la de alguma forma, protegê-la. No entanto, tudo nela estava no lugar, enquanto tudo em mim estava em desalinho.
Volta e meia me pedia algo: dinheiro, meias, “jóias”, dinheiro novamente, uma bolsa, um lenço... eu repetia sempre:
― Não tenho nada, tenho um abraço apertado, você quer? É de graça!
Jamais disse não.
Em algum momento, decidi trocar o abraço por calcinhas e comecei a “trabalhar” para que as usasse. No dia em que, finalmente, vestiu uma, fiquei contente, convencida de que começava a protegê-la. Ela também ficou feliz, na verdade, felicíssima, me abraçou pela primeira vez, dançou, deu piruetas e demos boas risadas juntas.
Durou pouco. Alguns dias depois, assim que me viu, começou a gritar que eu a estava agarrando e berrava, implorava, chorava, gesticulava:
― Sai de mim, sai de mim, me larga, me larga...
Pior ainda, escondeu-se com medo de mim. E ficou ainda pior: vociferava contra mim com tal violência, que eu era obrigada a sair de perto. Nunca mais sorriu ou quis chegar perto... Passou a vagar e orbitar à distância, me recriminava baixinho, olhando-me de lado. Permaneceu assim por muitas semanas, até que entendi que seria assim para sempre. Não me despedi, simplesmente não voltei, nunca mais.
Minha noção de liberdade, uma prisão para ela. Minha noção de proteção, uma invasão. Minha noção de certo, completamente equivocada. Minha dedicação a ela, alheia, impessoal, insensível. Ela, um paradoxo; eu, sem noção.
Publicado por Cida Magalhães.
Cida Magalhães quer viver como os Engenheiros do Hawaii cantam: a medida de amar é amar sem medida.


Cida, que texto pungente. Me fez refletir - - ainda estou atordoada com o paradoxo da nossa noção de liberdade. Como sempre, o seu texto tocou minha alma.
Cida, seu texto é criativo e tudo nele é envolvente, desde o enredo até a linguagem. Cada vez mais me convenço de que esse blog foi uma grande descoberta para mim!
Meu blog, que contém também textos profundos, filosóficos ou não, é: www.olivroestanamesa.blogspot.com Fique à vontade para me visitar e comentar minhas postagens =)
Mais uma vez, parabéns!
Outro texto fabuloso; sensacional. Cida: 100% de aproveitamento.
SENSACIONAL! Daqueles que dá vontade de ler, reler e voltar a ler várias vezes!
PS.: Esse "sem noção" me persegue né?!
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