sexta-feira, 23 de julho de 2010

O acidente nos arredores de Groom Lake

     Vinha guiando o veículo com a presteza, habilidade e paciência que os anos de experiência lhe emprestaram. Apesar da pressa, tinha de terminar as entregas ainda naquela noite. Seguia devagar, pois a idade avançada já não lhe permitia o privilégio da velocidade.
     Curva a curva ele seguia em sua trajetória. Nada o distraía de seu serviço. Pessoas dependiam dele e de suas entregas. Algumas vezes, via-se cego. Faróis altos de carros apressados em sua volta para casa eram jogados contra suas pupilas dilatadas. Não raro, tinha de sair da frente de algum motorista que dormisse ao volante ou um inconsequente que porventura dirigisse embriagado. Era sempre assim. Trabalhar à noite significava aprender a lidar com adversidades.
     A certa altura da noite, cruzava uma área semideserta de... não se lembrava direito onde estava. Abriu o portaluvas e remexeu algumas coisas. Ali, entre o pacote de M&Ms e os comprimidos de energéticos para se manter acordado, encontrou alguns papéis e, dentre eles, um mapa.
     Olhava o mapa tentando se localizar em meio às inúmeras rotas delimitadas no papel quando finalmente descobriu onde se encontrava. Seu espanto foi tamanho ao tomar consciência de quão longe de sua rota se encontrava. Naquele instante, entre a surpresa e a indignação de encontrar-se perdido e a preocupação de encontrar sua rota em meio ao tempo que se esvaía, divagou por um breve segundo.
     O susto lhe fez recobrar a atenção. Como se surgindo do nada, uma forte luz o cegou. Exigindo de seus rápidos reflexos, tentou desviar dos faróis que vinham em sua direção. Mas era tarde demais. Ouviu-se um forte estrondo rasgar a noite. O acidente entre os dois veículos havia provocado um grande choque.
     Por sorte, seu veículo era seguro e ele não se encontrava ferido. Olhou o outro veículo a sua frente. Pegou se celular, parou um pouco para pensar qual o número de emergência do lugar onde se encontrava e, discando-o, chamou a polícia para informar sobre o acidente.
     Minutos mais tarde, já com a autoridade e uma ambulância no local, o velho homem se lamentava. Não poderia fazer suas entregas naquela noite. Dezenas de pacotes espalharam-se por metros com o impacto. Muitos se quebraram, mas o principal dano era irreparável: deitada no chão frio do deserto, Rudolph estava morta. A pobre rena, a única no mundo com nariz vermelho recebera quase todo o impacto. Outras como Dasher, Dancer, Prancer e Vixen quebraram suas patas e não poderiam mais correr pelos ares.
     O homem de longas barbas brancas estava inconsolável. Tentava em vão convencer o paramédico da ambulância a levá-las para o veterinário mais próximo, mas este se recusava a levar animais no veiculo médico.
     Há poucos metros de distância do inconsolável Papai Noel, dois policiais analisavam o pequeno bafômetro. O índice de álcool dera um valor absurdo, cerca de mil vezes acima do permitido, então puseram-se a algemar o responsável pela tragédia. Dirigindo embriagado, o alienígena tipo Grey, aquele de corpo pequeno e franzino com cabeça gigante e grandes olhos pretos, dizia ter bebido só um pouquinho, mas, no interior de seu disco-voador, os policiais encontraram quinze engradados de cerveja vazios. Prova irrefutável de que pilotava embriagado. Papai Noel sentou-se no chão sujando sua aveludada roupa vermelha e jogou fora a touca com cabelos postiços, deixando à mostra uma careca. Um policial o olhou intrigado. O bom velhinho não se dignou a responder.
     Seria uma longa noite no deserto de Nevada.

Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez ainda não perdeu pontos na carteira de habilitação. Pelo menos, não nesta galáxia.

4 comentários:

mayflower disse...

Que tragedia e eu que estava muito triste hoje percebi que estou numa boa. Não tenho cabelos brancos, não entrego presentes ou dou no natal, não sou careca muito pelo contrario, não piloto animais ou qualquer coisa parecida, mas fim da picada povavelmente e ser atropelado por alguma coisa cabeçuda, de olhos grandes verde e bebado.Ops parece meu ultimo namorado. Obrigada Marcelo, Vc melhorou o meu dia. Deus existe e foi muito bom comigo,mas coitadinho do Papai Noel e da pobre Rena. Ano que vem vou prestar trabalho voluntario no polo norte seja um bom menino.

O Filho de Sam disse...

Uahaha

Papai Noel, velho batuta! Tomara que esteja no seguro!

Duvido que ele também não tinha tomado uns goles, aquele velho cachaceiro.

Vai ter que arrumar outra rena, provavelmente chamada Prankster.

Érikiinha disse...

Pobre rena .. no lugar errado , na hora errada .. descanse em paz . Amém.

Marrie disse...

Quem sabe assim, o 'bom' velhinho não para de sacrificar os animais e se motoriza de uma vez por todas. =P