Pela escuridão caminham, pela escuridão espreitam, a escuridão enxergam e nela nós vivemos. Todos nascemos assim, desde bem filhotes até a mais avançada idade. Sabemos como lidar com isso que alguns de vocês chamam de maldição, mas as coisas não são bem assim.
Tudo começou há muito tempo, uns dez mil anos talvez. Nossos ancestrais foram capturados ainda bem pequenos para serem criados por vocês. Devido a suas necessidades naquela época, possuíamos algo que os encantava e do qual necessitavam, nossas infalíveis e silenciosas habilidades de caça. Na época, vocês não poderiam compreender que, para nós, “caçar” é algo bem mais amplo.
E assim fora selado um pacto, uma amizade. Criavam-nos com amor e respeito e por muito tempo o mundo seguiu assim. Então chegou uma época de maturidade entre vocês em que, finalmente, fomos compreendidos em nossos talentos e passamos a ser adorados como deuses. Passamos a ganhar mais do que amor e carinho, também seu respeito e admiração. Ergueram estátuas em nosso nome, colocaram-nos em pedestais, incluíram-nos em suas histórias e até mesmo em seu leito de morte, pois enfim compreenderam nossa verdadeira vocação.
O tempo passou novamente – ele sempre passa – e, estranhamente, vocês perderam o conhecimento que possuíam. De todos os seres que conhecemos, vocês parecem ser os que aprendem mais rápido, mas também se esquecem facilmente do que aprenderam. Somente alguns poucos mantiveram a sabedoria sobre nossa real natureza e nos mantiveram por perto. E então, uma era estranha assolou seu mundo. Vocês sempre foram uma espécie bélica; sempre gostaram de lutar entre si. Engraçado: no início, poucas vezes vimos lutarem por comida. Lutavam por coisas estranhas. Por espaço, por pedras e depois por ideias. Foi nesse período que sua imagem de nós, que sempre estivemos a seu lado dedicando nossas vidas a sua proteção, fomos julgados pela ignorância e condenados pela cegueira de suas novas ideias. Passamos a ser vistos como inimigos, e logo nos caçaram, torturaram, queimaram. Quase fomos dizimados por quem tanto amamos. Com tão poucos de nós, seu inimigo não tardou a aproveitar o descuido e se instalou em suas casas. As mortes começaram a aparecer e aumentaram dia após dia. Sem conhecimento, sem proteção. É uma lição que não devem esquecer. Muitos da sua espécie padeceram naqueles anos tenebrosos, levados às portas do fim sem visão. Sem saber por qual caminho seguir, tiveram seus espíritos consumidos, e nós não pudemos fazer nada.
Mas esses tempos passaram – eles sempre passam. E nossa amizade pôde florescer novamente. Sim, é verdade, as perdas foram incalculáveis. Muito de seu conhecimento se perdeu, e hoje vocês se distanciaram dos saberes antigos, mas pelo menos não nos caçam mais e pudemos honrar nossa parte do pacto e revigorar novamente nossa antiga amizade. Sendo assim, aqui estou eu. O ser que vocês humanos chamam de felino ou, simplesmente, gato. Vivo entre os dois mundos. Vocês podem nos ver aqui como animais de estimação, pequenos, dóceis, frágeis e dorminhocos. E nunca tomaram o conhecimento do que somos do outro lado. Estamos sempre de olhos atentos num e noutro mundo. O mal adora cegueira e isto vocês têm de sobra. Alguém tem de protegê-los. O que vocês chamam de maldição, na verdade seria mais como uma benção. Afinal, o que seria da vida cega dos humanos se não fosse por nós e essa nossa paixão que atravessou milênios?
Deitado em sua janela isto é tudo o que tenho para lhe dizer esta noite, meu amigo. Bom que alguns de vocês ainda não perderam a capacidade de nos ouvir. Uma sombra espreitando a janela do quarto da menina. Posso vê-la entre os dois mundos, a espreita para saciar suas hediondas vontades. Espreguiço-me. É hora de trabalhar.
Publicado por Marcelo Ez.
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12:22
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1 comentários:
Sensacional namorado, amei, texto muito rico!!(ps.:mas continuo preferindo cães! rsrs)
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