Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Stuart e a Ave

     Pelas contas dos criadores, nove pássaros já haviam sido atacados pelo gavião que assombrava o bairro. Alguns terraços começavam a se cobrir com telas. Em outros casos, gaiolas de madeira davam lugar às de metal, inutilmente – se um cantador sofre um atentado dessa natureza e sobrevive, o trauma deixado é de dar dó.
     Stuart nunca foi desses a quem se pode chamar adepto à prática. No máximo, cuidou ainda criança de um sanhaço e agora tomava conta de um canário-roller a pedido de seu pai. Mas quando percebeu que a fera dos céus tomara gosto por pousar sobre a antena de seu vizinho do lado, Stu considerou pela primeira vez usar sua espingarda de pressão para matar.
     No primeiro dia, o gavião desceu por volta das dezessete horas. No segundo, das dezessete e trinta. No terceiro, às dezesseis estava o sniper entocaiado de peito sobre a mesa do terraço, com seu corpo coberto por papelões e um discreto cano preto apontado para o conjunto de elementos em alumínio.
     A ave pousou. Stuart meditava sobre a responsabilidade concedida por seu pai, e até nas horas que perdia na piscina assistindo à hipnótica dança de Bono, de um poleiro para o outro, de um comedouro para o outro, para o bebedouro, e de volta. Não era justo aquilo terminar. Então, convencido de que fazia a coisa errada pelo motivo certo, inspirou profunda e lentamente, segurou o ar para não tremer – pois, caso errasse, faria apenas o alvo mudar de hábito, permanecendo, assim, a ameaça –, alinhou a alça à massa tendo em mira a cabeça do animal e puxou com cuidado o gatilho só o suficiente para tirar-lhe a folga, encostando-o ao limite entre vida e morte. Foi quando os olhos do gavião encontraram Stu.
     O momento hesitante permitiu à respiração voltar comedida, quase sem mover os pulmões. Ao mesmo tempo, a maneira como o coração acelerou após ter seu ardil devassado já havia comprometido gravemente qualquer vantagem que tivera sobre seu opositor. Entretudo, o mais estranho foi constatar que a ave não arredava. A fixação com que enfrentava os olhos de seu algoz parecia desafiá-lo a concluir seu projeto: assassinar o assassino.
     E assim ficaram ainda por um tempo. Stuart e a ave. E depois de findo o embate, jamais qualquer um dos dois retornou.


Publicado por Carlos Vinicius Ribeiro.
Carlos Vinicius Ribeiro desistiu de seu sonho de ser ornitólogo depois de ver um episódio do Pica-Pau.

4 comentários:

Pablo disse...

Rapaz, que coisa, hem.

Elis Barbosa disse...

Lembrei do texto da morta, depois de certos "olho no olho" a coisa se esgota.

Beijos,
Elis

O Filho de Sam disse...

Adorei o texto da morta! Pena que não dá pra comentar lá.

Pensando bem, foi melhor assim, porque eu teria dito que o seu texto é foda, e isso não seria muito elegante; não pegaria bem. ;]

Beijos,
Cougar

O Filho de Sam disse...

http://www.youtube.com/watch?v=7yVilqCZfXw

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