Estendido por inteiro no banco de trás do carro, o rosto voltado para cima ostenta um sorriso perplexo e divertido que só assim, tão menino, se pode ter. Os olhos vesgos encaram maravilhados a nova descoberta no estofado interno do teto do carro velho dos pais, um Fiat Prêmio. Estampado no emborrachado bege e macio, espalha-se um padrão de pequenos pontos pretos que sempre estiveram lá, mas que agora saltam para baixo em três dimensões, graças ao incrível truque de sua visão enviesada.
— Pai, mãe, olha! Olha os pontinhos pai, olha!
— Seu pai tá dirigindo, filho, ele não pode olhar agora. Ele tem que prestar atenção na estrada., que é muito perigoso. Ainda mais corendo assim.
O pai, com um resmungo lacônico, ignora a observação ácida da esposa e continua dirigindo pela Dutra, mas confere de esguelha o velocímetro que está a um centímetro de tirar-lhe a razão.
— Pai, falta muito?
“Não demorou nem meia hora dessa vez”, pensa o pai, e responde:
— Falta, filho. Falta bastante. A casa da sua vó é bem longe, então paciência, por favor.
Mas o garoto não parece incomodado com a resposta. Cansado de forçar os olhos, senta-se no banco e cola a cara na janela, resolvido a dar uma olhada no que tanto sua mãe manda o pai prestar atenção.
A estrada passa por um campo aberto com gramados a perder de vista no horizonte, de onde a cercam colinas verdes ao longe salpicadas de vacas, pequenos calombos verdes amontoando-se uns sobre os outros, como corcovas de um monstro marinho gigante enroscando-se semi-imerso pelas ondas do campo. Ele quase consegue distinguir o movimento serpeante do corpo monstruoso, e estremecendo com leve excitação e medo, desvia o olhar para o céu azul logo acima.
É um belo dia de verão, como todos os dias de férias deveriam ser, com nuvens fofas e brancas boiando por uma imensidão azul, escondendo e revelando o sol forte que brilha por trás, quase fixo no alto do céu. Como grandes pedaços brancos de massa de modelar, ele vai lhes dando forma. Uma se parece com um leão deitado na relva. Outra, com um grande pássaro esticando as asas impossíveis até se desmanchar. Um coelho, um rosto narigudo, e um besouro perigosamente abaixo de um punho fechado, solto e sem braço.
— Pai, tá chegando?
De novo.
— Não, não tá chegando. Quando chegar, você vai saber, então pra quê perguntar?
O garoto esquece logo da resposta, e também da serpente, que já não se vê, coberta pelas árvores que agora surgem em ambos os lados da estrada. Com grandes copas cheias e troncos grossos e tortos, passam correndo uma após a outra, a intervalos irregulares. À medida que ele tenta acompanhá-las com o olhar, as árvores parecem reduzir a velocidade, talvez tentando olhar de volta o garoto que as encara tão curioso de dentro do carro. Mas elas o confundem, não têm o mesmo ritmo que as pequenas estacas listradas de preto e amarelo, que passam certinhas, quase fazendo um barulho de tambor quando chegam ao final da janela, tum tum tum tum.
Frustrado, imagina-se projetando pra fora do carro, batendo as mãos nas árvores como quando corre pelas ruas batendo na grade do vizinho, o mesmo tum tum tum com um graveto na mão e o vento no rosto. Mas decide, em vez de um graveto, cavalgar o carro com uma espada nas mãos, avançando pelos flancos inimigos cortando cabeças de soldados-árvores como um herói num filme de fantasia.
— Tá perto, pai?
E mais uma vez:
— Não filho... Ainda não.
E à medida que avançam, sente a inclinação da subida da serra chegando, o carro erguendo-se como um foguete em decolagem, lento e poderoso, em direção ao espaço. Uma sensação engraçada no ouvido, como um dedo invisível tampando-o teimoso, e um zunido fundo e baixo, lembram-no de piscinas e água no ouvido depois do banho, transformando o astronauta num mergulhador, nadando pelas profundezas do oceano.
Descendo a serra, passa o incômodo agradável da pressão no ouvido, e com ele se vão as fantasias de Jacques Cousteau. O carro segue veloz com a gravidade a seu favor, e olhando em frente, espremido entre os bancos, o menino se vê hipnotizado pelas faixas amarelas sumindo depressa abaixo deles. Como uma grande besta faminta ele voa baixo, devorando borrões intermináveis. Lembra do videogame, e imagina-se dentro de um carro em forma de pacman, engolindo pontos amarelos e fugindo de fantasmas.
— Pai, tá longe?
Essa será a última. Aliviado, o pai responde:
— Não! Mais uns quinze minutinhos só, quase lá. Tá chegando, viu? Finalmente!
— Ah. Tá bom.
Puxa... Que pena.
Publicado por Roberto De Nigris
Roberto De Nigris era um moleque muito chato quando criança


10:16
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1 comentários:
realmente notei que as crianças se divertiam bem mais no ônibus enquanto eu tentava não vomitar o brunch sensacional da casa do fred...
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