A moça passa e vai, pobre rapaz. Não era a primeira canção de amor para ela, a noiva da cidade, a principal noiva de um cowboy desesperado. A moça vai, sai, larga, pobre rapaz. Segue a visão colorida e duplicada da figura fugidia, Ela, atávica. Ela foge, mais rápida do que a risada passada, o tempo é curto, o passo é firme, a cidade é grande. A moça? A moça passa, e deixa pra trás seu rastro de perfume abre-alas, a sombra esquiva, o silêncio de cinematógrafo. Sua blusa voa, os olhos combinam com a blusa que nela é única, apesar da presença das vitrines da cidade. Por elas, só o reflexo do corpo mudo percorrendo a calçada de pisadas fortes – mulher de Atenas, passos espartanos em disparada.
A moça se esvai a cada minuto, pobre rapaz. Ele, que tanto a recorda, pouco vê. E cada vez mais ela se forma em sua ideia como um projeto dela mesma, como imagem de moça no espelho, no vidro da vitrine que dela se enamora. Pobre rapaz. Para ela, o amor mais puro, mais elaborado, mais etéreo, menos boca de feijão e de hortelã. Para ela, os segundos de admiração velada. Para ela, a espera nossa de todo dia de vigia. Para ela, a poesia da palavra imaculada. Ela, um facho de luz que percorre a cidade. Pobre rapaz.
Texto inspirado na música "As vitrines", de Chico Buarque.
Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto sempre faz a lição de casa.


18:17
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7 comentários:
Deliciosa brincadeira de intertextos e Chicos nas entrelinhas. Isto é que dá espiar através do olho mágico de suas canções. E que olhos!
E que olhos... :)
Essas mulheres de Chico...
Muito bom, Eloise!
Adorei a brincadeira! Você com música, eu com filme, é do que a gente se alimenta né?!
Beijos,
Elis
Tirei o dia pra te ler. Vc tá no caminho certo. E quanto ao livro que vi que tá escrevendo. Só comece a apagar depois que terminar. Arestas só se aparam quando o papel já está bem cortado. É uma dica!
Brincadeira... Brincadeira??? Se bem conheço, diria que está falando sério.
Anita, quanto tempo...
Elis, eu queria ser melhor de cinema, mas música é bem mais a minha praia...
Calixto, você sempre é bem-vindo e sabe que faz falta. Vamos escrevendo, sem cortes mais, por enquanto, estou apaixonada por isso aí de livro, sem brincadeiras, Ez.
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