Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

No profundo da carne

     Uma pena não existirem inventos. Máquinas que consertem a gente como deveriam consertar. A máquina de consertar palavras erradas, ainda, por exemplo, não foi inventada. Foi inventada a palavra desculpa, que devido ao uso já não possui tanta credibilidade. Junto com a palavra errada nasceu o silêncio, que chamamos de constrangimento. Infelizmente ainda não inventaram a tal máquina de consertar constrangimento.

    Não há máquina que conserte relacionamento falido e nem coração escangalhado. Não há. Não há bálsamos nem para o constrangimento e nem para a dor, não há borracha que apague o desencontro e nem os erros, as cobranças, as acusações. Veja você, não há nada que nos redima. Somos dois perdidos numa noite suja, e a noite não tem fim.
     Dizem – os mais otimistas – que o tempo cura tudo. É mentira. Não cura nada. A solidão é o tempo, o tempo que esqueceu de acontecer. A solidão é o tempo da partida, do adeus, e o tempo, ah, é o filho ingrato que não volta nunca, que se rebela, que te cala. O tempo nada conserta. A gente é que precisa consertar o tempo.
     A gente precisa consertar o tempo, as coisas que estragamos, as coisas que ainda são possivelmente coladas, se forem coladas. A gente precisa ser mais responsável com o tempo, e com as coisas. Numa última análise, a gente precisa ser só um pouco menos humano. A gente precisa consertar as noites mal-dormidas, vencidas pelos problemas, pela descrença. Recuperar o frio nas entranhas quando o primeiro olhar. Recuperar a certeza do primeiro sim, do primeiro riso. Recuperar a nuvem, o sonho, a caixa de música destampada.
     Pena não existir: máquina que separa e junta cama, relógio que desmarca compromissos, lenço de fazer a lágrima não cair, capacete esquecedor de gente que já se foi, mapa de entender onde foi que as coisas começaram a dar errado. Pena não existir o capturador de vozes da memória, que eu tenho medo já de envelhecer e esquecer as vozes das pessoas que já não existem em outro lugar que não sejam na minha memória. Eu tenho medo de esquecer as vozes dessas pessoas, a quem amei profundamente, e já não existem tanto,





     Eu tinha descoberto as coisas – é melhor não descobri-las? O pior é descobrir outras, as coisas que não tem jeito, que tenho vocação mesmo, nos mesmos silêncios, nas minhas ausências de olhos absortos em outro mundo que não há, em outra realidade paralela possível onde existe felicidade a preço baixo e sem consternação, o duro é mesmo descobrir que a descrença que tenho, o pessimismo que tenho, a solidão que tenho, essa não tem cura – está entranhada em carne, no profundo carne, pegada nas veias.


Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto não ganhou na mega ultra sena, infelizmente.

3 comentários:

Rodrigo disse...

O mais difícil ao ler esse necessário texto Eloise é saber que há um pouco de cada um nessas linhas e que o tempo sempre vence. Por mais que gente tente consertar os nossos desconsertos, fica sempre alguma coisa remoendo na gente como o tic-tac do relógio.

Parabéns pelo texto!

O Filho de Sam disse...

O tempo droga tudo.


É uma merda isso, né, querer ficar consertando tudo, até o que não tem conserto? Em muitos casos a situação até piora, fica ainda mais constrangedora. Aí está um ponto positivo em relação ao tempo: às vezes ele traz a maturidade que permite ver quando o melhor é deixar o assunto quieto. Já foi; já era. Mas máquina pra isso... tem não.

Elis Barbosa disse...

Desejo é o que nos move, e viver o desconserto, o não, o constrangimento, o fim, acaba fazendo o ciclo do desejo coisa renovada, mesmo quando a boca amarga. Desejamos, vivemos, acaba o doce daquela lata e queremos mais. Nem sempre a gente sabe como fazer, e mesmo que se consiga fazer de novo nunca é igual. Não tem conserto querida, nem fim! Seja nessa ou numa realidade paralela a gente aprende sempre.

Texto fluido, carne honesta, desejos legítimos.
Beijos,
Elis

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