Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

domingo, 21 de novembro de 2010

Eu amo todos vocês

    Quarta feira à noite, Judeu me liga:
- Fala, meu querido, e aí, eu tô ansioso pra chegar sábado, lá na casa da Elô. Tô com uma saudade de vocês, cê vai levar Vivian e Sofia?
    E aí quebrei a expectativa dele. Disse que não iria, pois estarei trabalhando em Rio das Ostras. Tanto eu, quanto minha esposa – e minha filha a tira colo. E ele completa:
- Ah, Calixto, nessa tá indo todo mundo, a galera toda confirmou. Vai ser maneiro, só um que não vai. Vai dar pra matar a saudade de todos. Não vou poder matar a saudade de você?
    E foi nessa frase que ele me desarmou. Cometendo um dos piores erros possíveis – atendi-o dirigindo, retornando para casa – depois dessa, eu quase parei o carro para poder encontrar a frase mais amorosa para responder ao meu amigo Judeu. Mas não parei, nem a frase me viria. Eu estava desarmado mesmo.

- Pô, cara, leva Sofia e Vivian, vai ser maneiro. Eu faço aquele almocinho de sempre – para quem não sabe, Judeu cozinha muito – e vamos jogar papo fora, você sabe que eu te amo, né, meu amigo?
- Eu também te amo. Cê sabe que te amo também, né, meu querido?
- Sim, sei.
    Ele é o segundo homem para quem eu disse que amava mesmo. Abertamente. Na frente de todos. Tentei falar a um outro amigo, mas a sua homofobia falara mais alto. E não terei como ir mesmo.
    Mas aquela conversa, atrelada ao meu eterno questionamento – autoculpa – pelo excesso de trabalho, vai me fazer não ir ao Rio, estando com um severo peso no coração. E lá estarão meus outros amores. Outros homens e mulheres que amo, e alguns outros que passarei a amar, por admiração. Para quem não sabe o Trema é fruto de um processo antigo de encontro, amizade, amor, admiração e coexistência. Eu, Marcelo (Judeu), Eloise, Vinícius, Pablo fizemos faculdade e depois, sem deixar de estudar juntos, fomos à oficina literária de Antônio Torres, para a comunidade interna da UERJ. O que era para ser um semestre tornou-se dois anos e meio, pois o projeto deu mais do que certo e ele era sempre renovado. Antônio Torres tornou-se figurinha fácil dentro da Faculdade de Formação de Professores de São Gonçalo e nós os novos defensores de uma literatura em transição e que trazia muito mais receios do que certezas. Em época de grandiloquência a Harry Potter e outros ícones de uma cultura pop de enlatados, passamos a achar que o objeto de nosso amor – e de nossas intenções – nos deixaria ultrapassados antes mesmo de termos começado. Anos depois, já formados, todos trabalhando, batalhando um sucesso mais mundano, veio Eloise com a ideia do Trema. Compramos o barulho e todos estamos aqui.
    Agora o tempo é outro. Mais certos de nossas convicções, não tem como não gostar do que cada um está escrevendo. Mas eu já os amava antes. Vinny por sua sinceridade, seu grau de veemência, sua capacidade, não tem como não amá-lo. Judeu, amo já de antes, de nossas conversas sobre Arthur Clarke, sobre música, sobre sua pureza como homem. Pablo, por sua genialidade em tudo que faz, Canil ainda é o melhor romance da nova geração de escritores. Eloise por sua ambição, visão, força. Toda vez que penso em Eloise, lembro de uma conversa que eu, ela e Judeu tivemos em um restaurante sobre como agiríamos diante de uma situação particular – não irei dizer a situação, não adianta – mas ainda aquilo se mantém. Impagável é a lembrança da lingüinha de Judeu. Como amigos, nos amamos; como próximos, somos fraternos.
    Hoje, há novos amores. Esses novos escritores que aqui estão, catalisados por nossa editora Eloise e nosso editor Vinícius, encontrados nesse mundo de internet que é galático. São, sim, novos amores, novas consonâncias, novas descobertas. E depois do que Judeu me falou, há uma leve inveja, como eu gostaria de estar por lá e ver cada um deles. Dar uma voz à foto, dar um movimento a uma imagem estática, dar uma razão ao motivo da escrita. Seria tão bom lá estar, mas por sorte há a possibilidade de um texto, uma cartinha aberta ao público, pela qual eu possa expressar esse minha forma de amar. Sem apreços ou encontros. Apenas a forma mais pura de amor.


Publicado por Márcio Calixto.
Márcio Calixto perdeu os sabores mais exóticos de caipivodka e também um festão.

10 comentários:

Márcio Calixto disse...

Pra piorar, passei mal bagarai! Esse negócio de dirigir muito tá foda!!!

Elis Barbosa disse...

Menino, que pena você não poder ter ido... foi tão, mais tão, mais tão legal!!! As palavras encarnadas nas caras da pessoas, e cada qual com suas pessoas, as histórias explicando o texto. Enfim, não faltarão oportunidades.

Você já tem meu telefone, quando quiser ligue e faremos o encontro das famílias.

Beijos,
Elis

Marcio Greg disse...

O Archie ("Marcelo", como ele assina aqui no Trema; "Judeu", como alguns o chamam) tem mania de chamar as pessoas de "Queridão", com aquela voz de Pepe Le Gambá que ele faz.
Mas estamos falando da mesma pessoa? Ele cozinha bem??? Aqui em casa ele não acertou fazer as torradas da bruschetta, queimou o pão todo!!! Sei não, hein...
Cara, também perdi esse evento, estava em Araruama resolvendo pendências familiares... fica pra próxima (que eu espero que seja BEM próxima).

O Filho de Sam disse...

Eu ia comentar, mas tenho medo de ser interpretado como homofóbico.

Márcio Calixto disse...

Colé Vinny,

só tem viado nessa porra mermo!! Esse negócio de literatura é tudo pra jóquei de jiboia!

Elis Barbosa disse...

Hahahaha! Joquei de jiboia?! Que imagem louca!

Roberta Mendes disse...

O encontro, de tão natural, parecia reencontro, até para os que não se conheciam :-) Foi realmente maravilhoso. Senti-me entre irmãos.

Eloise Porto disse...

Engraçado, eu tive a mesma sensação. Na quinta-feira é que me dei conta que várias pessoas ali não se conheciam, o que soou de maneira estranha.

Dingo bells, Mrs. Beija-flor.

:)

Rodrigo disse...

fala Calixto, blz!?

Morar não moro não mas vou com freqüência. Minha família tem uma casa na rua da ponte quebrada. Cheguei até a comentar com a Elis para quando tiver um evento maneiro aí, a gente marcar alguma coisa.

Marcelo Ez disse...

Nossa, estou lendo isto com extremo atraso. Mas digo que nunca ri tanto com um texto e com posts neste site.
Realmente amigos, foi MARAVILHOSO!!! Realmente amigo, voce perdeu uma ótima festa.
E sim, teremos outra em breve.
Aguardem.

PS: Amigo, desculpe, tomarei mais cuidado ao falar no telefone com voce. Vai que se mete em um acidente por minha causa. Sem perdão.
Abraços.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Macys Printable Coupons