Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Borrachas

     Ela passeava pela neblina, num estado de tensão que poderia ser observado pela maneira como mordia os lábios incertos sob o guarda-chuva.
     O corpo esguio, levemente deformado, deslizava com rapidez pela garoa daquele frio nevoento. Sua magreza e palidez sempre evocavam o frio e a fragilidade, como se algo a precisasse conter, dar suportes. Era uma mulher pequena, de mãos pequenas, de olhar que emanava uma fuga premente, um certo desconforto com qualquer outro ser humano que se aproximasse. Era isso: o desconforto que lhe causavam os humanos. A impossibilidade da proximidade real, um furor de pânicos e mãos cruzadas e suarentas, que se mexiam incontroláveis.

    Caminhava sob a delicada chuva com seu vestido vermelho e suas galochas amarelas. Poderia ser bonita. Não a mais bonita. Uma beleza qualquer.
     E se caminhava sob o final de tarde, era porque tinha tomado uma decisão e queria levá-la, sem carregar consequências. Ninguém gosta de consequências. Principalmente das brutais. Ela, na realidade, temia as consequências. As brutais. Mas as piores, ela o sabia, eram as delicadas.
     Chegou ao pequeno prédio com a decência dos que conhecem as consequências de fim. Era um fim ao futuro possível. Então não era isso, a vida, renunciar aos futuros possíveis? Era isso o tempo todo, ela pensava sob o teto da sala de espera. Você toma uma decisão, que se desdobra em outras decisões, e na maioria das vezes não dá pra pegar a borracha emprestada, como fazia na escola onde estudava, porque sempre perdia as borrachas. Ela disse que nem sempre dava pra pegar borrachas emprestadas, e ele retrucou que nesse caso tinha, mas essa borracha era grande demais para caber na palma da mão da morte, e a cara séria dele denunciava que não tinha jeito, que não tinha jeito para mais nada ali. Ele não me disse que não tinha jeito, ela pensou, mas o diálogo terminou nas formas mudas da face um do outro, pois as palavras não cabiam ali – sobravam, sobrariam. Então era isso, a atendente no balcão confirmava a hora do procedimento, e ela olhava para a atendente com uma cara tão patética e tão franzina, encolheu-se, incapaz de formar palavras, a atendente já impaciente perguntava quem estava ali com ela, e ela se perguntava quem estava ali com ela embaixo daquele teto tão alto e branco, Deus? – ela pensava, bom, eu não sei ao certo dizer pois já não tenho certeza, mas estava incapaz de formar as tais palavras, essa convenção que nos abandona nas horas mais impróprias, pois no fundo somos todos selvagens em pensamento, ela sentia que diminuía de tamanho até voltar aos nove anos, onde tudo parecia tão grande. A atendente buscava os olhos da moça atônita ou imbecil, que abria a boca muda sem aparentemente entender o que se passava, resolver perguntar novamente se ela estava acompanhada, ela pensava será que estou acompanhada, e os minutos pareciam passar vagarosos na sua cabeça e no seu ventre, estava trêmula. Foi até o recipiente de água, estava melancólica com suas galochas e o copo de água cheio ali na mão, pegou a bolsa e olhou para atendente, era um erro, tanto a vida quanto a morte eram erros, ela disse, e bateu a porta com força para dizer a si mesma que não voltaria mais ali.
     Ela sorriu, pois naquele momento acreditava que nunca mais precisaria das tais borrachas emprestadas, especialmente as dele.
     Sete meses depois da chuva, cortaram o nosso cordão umbilical, com tesoura e sangue me senti repartida e nunca mais consegui te entender e te adivinhar, nesse mundo de relações precocemente cortadas. Dizem que as crianças gritam porque o ar nos pulmões arde na primeira vez. Eu gritei porque doía, era dor, mãe, era dor. Dor daquelas borrachas não estavam ao alcance da mão.


Publicado por Eloise Porto.
Eloise Porto não gosta de ter hora para acordar.

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