Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caderninho de perguntas

Sabe aquele tipo de lembrança que surge de maneira absolutamente insuspeita e te deixa pensando de que distante recesso do seu subconsciente ela aflorou? Outro dia eu estava em casa, matutando sobre o nada, quando uma atividade da minha época de Ensino Fundamental 2 (que antigamente conhecíamos como ginásio) acendeu em minha mente como um sol: existia o hábito de se criar e responder cadernos de perguntas. Não sei se isso era prática comum em outros estados do Brasil e nem mesmo se ainda existe, mas nos idos dos meus 13, 14 anos de idade era uma febre. Havia ocasiões em que, numa mesma sala de aula, disponibilizavam-se cinco, seis cadernos do tipo ao mesmo tempo. 

Para aqueles que porventura não tiveram essa experiência ou não se recordam claramente, uma breve explanação se faz oportuna: o termo “Caderno de Perguntas” é bem auto-explicativo, já que as meninas (e uns raros meninos) compravam cadernos em branco e a cada uma ou duas páginas escreviam uma pergunta. Depois de criadas as questões – alguns cadernos chegavam a ter 150 perguntas ou mais – o caderno era passado adiante na sala de aula e entre os amigos e as pessoas deveriam responder da maneira mais sincera possível. Depois de terminado o caderno (o que significava ter todas suas linhas preenchidas, sem vaga para um ponto sequer) e muitas vezes antes mesmo disso, as pessoas, curiosíssimas, liam as respostas dos outros. Havia o interesse das garotas em saber as respostas dos garotos e vice versa. Eu respondia e lia por que sempre quis conhecer o outro.
O caderno começava básico: qual seu nome, onde mora, coisas do tipo. Era um “reconhecimento do território”, por assim dizer. Depois as questões se aprofundavam em temas de interesse da adolescência. As perguntas eram sempre as mesmas e as respostas, muitas vezes, também se repetiam à exaustão: “Você é virgem?” As meninas sempre diziam que sim, mesmo quando era sabido que isso era mentira. “O que você acha das drogas?” A resposta engraçadinha mais comum era “As drogas são uma droga”. “Deixe uma dedicatória” e sua infame e deplorável variação “Deixe um piche”. Após algum tempo irritava-me a obviedade das perguntas e respostas e eu decidi fazer um caderno que ninguém entendeu e ninguém respondeu.
Hoje, décadas depois, em tempos de perguntinhas e aplicativos irritantes nas redes sociais, acho que cabe a criação de um novo caderno de perguntas, uma atualização para as pessoas daquela geração, que envelheceram (todas) e amadureceram (nem todas, com tudo que existe de bom e de ruim nisso). Então eis aqui minhas perguntas, algumas copiadas de outros perguntadores, pois são sempre interessantes. Ainda há em mim a curiosidade em conhecer o outro e as perguntas refletem isso. Não há perguntas cretinas ou pertinentes ou óbvias, mas lembrem-se: as respostas, essas sim podem ser adjetivadas, posto que podem enriquecer ou empobrecer a indagação à qual se referem.
CADERNO DE PERGUNTAS 2012 (leia uma pergunta, pense na resposta e somente em seguida leia a outra)
1 – O que você pretende ser quando crescer, além de um bom animal?
2 – O que falta fazer?
3 – Cospe ou engole?
4 – Mentir é ruim?
5 – Como viver?
6 – Que fama você tem e que fama gostaria de ter?
7 – A Era do pensamento Socrático já deu. O que fazer? Recorrer aos pré-Socráticos (e ao devir) ou pensar algo verdadeiramente novo?
8 – Quem matou mais o deslumbramento humano: Religião ou Ciência? Elabore.
9 – Certa feita perguntaram a Chet Baker que queixa ele tinha a respeito das drogas, ao que ele respondeu: “O preço”. Que reclamação você tem a fazer a respeito das drogas?
10 – Dois personagens da literatura e um do cinema que te definiriam. Elabore.
11 – Como você quer morrer?
Algumas perguntas do questionário de Bernard Pivot, inspirado em Proust:
12 – Qual sua palavra favorita e a palavra que você menos gosta?
13 – Que som você ama e que som você odeia?
14 – Qual seu palavrão favorito?
15 – Se o Paraíso existir, o que você gostaria de ouvir de Deus ao adentrar Seus portões?
Responda todas as perguntas, responda algumas, responda apenas uma; deixe as suas respostas nos comentários ou as mande pro meu email; se preferir não responda nenhuma, apenas pense nas respostas que você daria; acrescente novas perguntas, se isso lhe aprouver.
No final do bimestre, antes da prova de Educação Moral e Cívica, compartilharemos as respostas.


Publicado por Marcio Greg
Marcio Greg nunca se limitava à pêra, uva ou maçã. Sempre escolhia a salada mista.






7 comentários:

Roberta Mendes disse...

A ver se trago a público as minhas respostas... ;) No mais, te adianto: em Fortaleza não tínhamos isso não. O negócio era o jogo da verdade, com a mira da garrafa ou do chinelo, como um spot sobre as confissões que pretendíamos sórdidas, inocentes que éramos.

Marcelo Ez disse...

Boa ideia meu amigo. Demorou, mas saiu a resposta.

1 – Um animal grande.

2 – Algo que ninguém pensou ainda.

3 – Putz...

4 – Depende de pra quem você vai mentir.

5 – Bem.

6 – De um cara reeeeelax. De um cara estressssssado.

7 – Recorrer ao pensamento Hakinbeyano. http://pt.wikipedia.org/wiki/Hakim_Bey

8 – Certo, sou ateu e anti-religião, todo mundo já sabe. Mas, se formos contar em termos históricos...
As religiões (principalmente as cristãs), geraram mais guerras na historia humana do que qualquer outra motivação. Guerras por poder politico, hegemonia, território, dinheiro, etc... sempre tendo como mandatário a igreja e, como justificativa, a religião. Quantos humanos geniais, morreram antes de poder dar sua contribuição a humanidade? Sim, a ciência também fez o papel dela e não está isenta de culpa. Porem, é sabido que esta, e seus impulsores, sempre se viram subordinados ao bel prazer de interesses políticos e, por conseguinte, religiosos.
É só pensar. Por séculos os humanos fizeram o que de suas vidas? Foram para guerra. Os mais fortes, inteligentes, criativos, honrados e honestos em fim, os genes realmente importante da espécie humana foram deliberadamente exterminados em guerras sem sentido. Quem ficava fora da guerra, para procriar e espalhar sua descendência? Os corruptos, os desonestos, os de comportamento hediondo.
Os humanos acabaram por denegrir sua própria herança genética, e a tal da religião (principalmente as cristãs) é que estavam por de traz de tudo isso.

9 – Das drogas nenhuma. E sim das leis que não as regulamentam e, futuramente, dos mal educados que as usaram em qualquer lugar.

10 – Literatura: Archie (um alienígena presente no terceiro livro da quadrilogia Rama de Arthur C. Clerke), e Valentine Michael Smith (O marciano de “Um estranho numa terra estranha”). Do cinema: Capitão James Tibérius Kirk. (USS Enterprise). Os motivos, para quem os conhece, são óbvios.

11 – De falência múltipla dos órgãos, no finalzinho da minha festa de aniversário de 150 anos, bêbado e ouvindo Rock and Roll.

12 – Preferida: Hiperbombásticamente / Preterida: Mijar (Mas infelizmente, a uso mais que a preferida)

13 – Amo: Guitarras / Odeio: Britadeira

14 – Putaquepariu (sim, tudo junto)

15 - Porra cumpadi, que bom que cê chegou. A galera tá toda aí só te esperando. Entra aí, pega uma Deus (cerveja) na geladeira e fica a vontade.

Roberta Mendes disse...

1 – O que você pretende ser quando crescer, além de um bom animal?
R: Gente.

2 – O que falta fazer?
R: Deixar a arte transcender o olhar e contaminar todos, eu disse TODOS os aspectos da vida.

3 – Cospe ou engole?
R: Depende da semente... De uva, por exemplo, engulo. De melancia, eu cuspo.

4 – Mentir é ruim?
R: Arde na face, coloca o espelho em cheque.

5 – Como viver?
Artisticamente.

6 – Que fama você tem e que fama gostaria de ter?
R: A fama depende do círculo. Cada círculo elege uma característica da gente, parece. Na escola, eu era considerada CDF e certinha. Na Alemanha, eu tinha fama de sorridente, acolhedora e falante. Na família, eu tenho famas paradoxais: de lúcida e de engraçada. Desde que a fama não apague as nuances, não encaixote a gente numa única imagem, eu acho que está tudo certo. A fama que eu não gostaria de ter: uma que não tivesse respaldo numa característica minha.

7 – A Era do pensamento Socrático já deu. O que fazer? Recorrer aos pré-Socráticos (e ao devir) ou pensar algo verdadeiramente novo?
R: Haverá algo verdadeiramente novo a pensar? Quando vejo as livrarias abarrotadas de livros, suponho que tudo, definitivamente, já foi pensado. E, pior: escrito!

8 – Quem matou mais o deslumbramento humano: Religião ou
Ciência? Elabore.
R: O lobo no espelho.

9 – Certa feita perguntaram a Chet Baker que queixa ele tinha
a respeito das drogas, ao que ele respondeu: “O preço”. Que reclamação você tem a fazer a respeito das drogas?
R: O problema não são as drogas. São os usuários. Parece-me fruto de um imenso desconhecimento de si mesmo e do próprio potencial criativo crer que se precisa de uma substância exógena para sintetizar sensações/transcendências/insights.

10 – Dois personagens da literatura e um do cinema que te definiriam. Elabore.
R:
(i) As protagonistas dos romances de Adélia Prado (e quem conhecer a prosa de Adélia sabe que são intercambiáveis e únicas, como toda vida), em especial a d"Os Componentes da Banda"
(ii) Admitindo que seja um personagem, a cidade de Sofronia,
d"As Cidades Invisíveis" (Italo Calvino).
(iii) No cinema, "A Garota da Vitrine". Quem disse que aquele filme é de comédia? Quando assisti no cinema, chorei de soluçar. Ninguém entendeu nada. Ainda bem. O que mais doía eram os olhos da Claire Danes. Olhos sem eco. Ainda hoje, mesmo passada a fase aguda da solidão urbana, sempre que assisto, choro. Choro um choro atemporal, inconsolável.

11 – Como você quer morrer?
R: De uma maneira que não angustie desnecessariamente aos que ficam. A morte da gente dói mais nos outros.

Algumas perguntas do questionário de Bernard Pivot, inspirado em Proust:

12 – Qual sua palavra favorita e a palavra que você menos gosta?
R: A palavra mais extraordinária que conheço é alemã. Chama-se
"Fernweh" que traduz uma saudade de estar distante/ viajando/ em movimento. Me entende? Existir uma palavra para isso!!!
Palavra de que não gosto? As que não são sonoras, tipo "lombriga", ou "seborreia".

13 – Que som você ama e que som você odeia?
R: Amo som de respiração; risada de criança; barulho de chuva.
Odeio vuvuzela ou quaisquer variações de apito ou cornetas. Agora se você se referia a gosto musical, eu amo Dave Matthews Band, samba, musiquinhas-felizes-para-tomar-banho e melancólicas-para-dias-de-chuva. Odeio música sertaneja.

14 – Qual seu palavrão favorito?
R: Que tal dizer a hora favorita do palavrão...? Conhece pimenta melhor? A arte está em dizer de forma picante, sem resvalar para o vulgar.

15 – Se o Paraíso existir, o que você gostaria de ouvir de Deus ao adentrar Seus portões?
R: "ô coisinha tão bonitinha do Paaaai" :) Brincadeirinha. Eu
queria ouvir algo do tipo: "Agora relaxa. Não havia um caminho certo, sabia?"

Roberta Mendes disse...

Errata:
4 – Mentir é ruim?
R: Arde na face, coloca o espelho em xeque.

Marcio Greg disse...

Obrigado, Archie e Roberta. Sabia que de vcs nao viriam obviedades.
Roberta, falando em palavras com funcoes especificas, vc sabia que alguns indios da Patagonia possuem uma palavra praquele segundo de silencio (quando o mundo para) antes do primeiro beijo de um casal? Eu achei lindo isso.

Roberta Mendes disse...

Lindo mesmo, Greg. Falta você me mostrar como a palavra é. Como é que se soletra esse silêncio?

Marcio Greg disse...

Pior que nao lembro, Roberta! Mas lembro de:
Sgriob (gaelico escoces) coceira no labio superior um pouco antes de tomar uisque.
E da bela Razbliuto (russo)o afeto que se sente por alguem que um dia se amou.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Macys Printable Coupons