- Fiquei intrigado com isso, Bete. Descarreguei mais de meio pente nesse cara e ele continuava andando na minha direção como se uma Glok 17 fosse uma pistola de água.
Bete riu da comparação e levantou o lençol. O corpo de um homem caucasiano de não mais de trinta anos estava inerte na mesa de autópsia. Possuía porte atlético, cabelos castanhos claros à altura do ombro e uma leve barba cerrada. Seu peito estava crivado por nove orifícios causados por projéteis calibre 9mm da pistola do policial Marcos Oliveira. Que tentou efetuar sua prisão quando invadiam um vídeo bingo clandestino em Copacabana durante o início da noite.
O homem, que sete horas depois do ocorrido, devido à ausência de documentos, digitais ou da adiantada hora da madrugada, ainda não havia sido identificado, estava em um canto mal iluminado na terceira e mais afastada sala onde funcionavam os jogos. Encontrava-se ajoelhado ao chão por cima de uma mulher. O agente Marcos percebeu muito sangue no chão e os olhos vidrados da vítima que se movia em pequenos espasmos, identificando que havia sido atacada há mais de 10 minutos.
Ao efetuar a voz de prisão, o homem não tomara consciência da presença do agente, foi somente quando teve seu rosto iluminado pelo foco da lanterna que se apercebeu da presença de mais alguém no recinto.
Marcos o viu levantar-se. Os olhos estavam avermelhados, seu rosto, mãos e roupas estavam banhados com sangue da vítima, que ainda tinha espasmos enquanto jorrava pequenos filetes de sangue pelo pescoço, seios e braços.
O homem olhou para Marcos e se levantou. Seus dentes eram pontudos como se tivessem sido limados. Mas o que impressionou o agente foram os caninos de comprimento bem superior ao normal. O homem fez menção de que caminhava na direção de Marcos. Seis metros os separavam, e uma faca de caça rodou entre os dedos de sua mão espalhando pequenos filetes de sangue da mulher nas telas das máquinas próximas.
O agente o mandou largar a faca e deitar-se no chão. O homem parecia não ouvi-lo e esticou uma das pernas passando por cima da mulher. Sua intenção clara. Iria atacá-lo. Marcos não hesitou. Mirou no peito e deu o primeiro tiro, mas, para sua surpresa, o homem pareceu não ter tomado consciência deste. Um segundo disparo e o que se seguiu deixou Marcos perplexo. O sangue que saía do ferimento da segunda bala espirrou em um grosso esguicho para o lado caindo por cima do corpo e rosto da mulher no chão. O homem sorriu e continuou indo em sua direção. O agente que havia saído da academia há um ano não acreditava no que via e, talvez por impulso ou inexperiência, fez sua arma explodir mais sete vezes enquanto recuava para fora da sala, até que viu o homem finalmente cair de bruços no chão.
Todo o ocorrido já constava no relatório que Marcos fizera após o incidente. Uma cópia estava disponível para a Dra. Bete há algumas horas. Os dois eram amigos antes de ingressarem na Polícia, e Bete não duvidava da palavra do agente e tentava, como médica, lhe apaziguar os ânimos ao mesmo tempo em que tentava entender o acontecido.
***
- Olha Marcos, existem várias explicações para isso. Ele poderia estar sob o efeito de alguma droga. Heroína pode deixar o cara com a sensação de invencível.
- Não, Bete, não acharam heroína nele. Ele estava limpo. E aqueles dentes? Como pode isso?
Ela abriu a boca do homem mostrando-lhe os dentes.
- Olha aqui. Tá vendo? Foram limados. Tem dentistas que fazem estas coisas. É só pagar bem.
- Tá, e aqueles caninos?
- Implante de porcelana. Toma.
Marcos olhou para os dois dentes na palma de sua mão.
- Porcelana? Então ele implantou os dentes de vampiro, Bete. É isso?
- É. – Ela pegou os dentes de volta e os colocou em cima da bancada a seu lado.
- Quer ver outra coisa estranha? – disse a mulher.
A legista foi até um armário e apanhou uma pequena lanterna.
- Olha, Bete, esse cara era um maluco, ok. Mas não explica como ele resistiu a nove tirou de 9mm sem um colete. E o que ele fazia com aquela mulher? Meu deus, ele estava lambendo o sangue dos ferimentos dela.
Bete olhou para a bancada do outro lado da sala onde se encontrava o corpo da mulher ainda coberto por um lençol, suas mãos manuseavam a lanterna enquanto falava.
- É, eu ainda não a olhei direito. Parece realmente que morreu por causa dos ferimentos no pescoço que laceraram sua veia e artéria. Bem, isso é uma lanterna de UV, eu uso pra procurar alguns tipos de marcas. Daí, coloquei nele e olha só o que aconteceu.
A médica direcionou a lanterna para a coxa do homem que, instantaneamente pareceu queimar com a incidência dos raios UV.
- Tá vendo? Eu nunca tinha visto uma queimadura com UV aparecer tão rápido.
- Tá, e o que isso significa? Você é a médica, eu não.
- Um processo inflamatório muito intenso a radiação. Parece porfiria, mas de reação imediata. Portadores de porfiria desenvolvem alta sensibilidade à luz, em especial luz do Sol devido à radiação UV, pois tem a pele com baixa pigmentação de melanina. Você ficaria queimado também se ficasse uns cinco minutos sob a luz, mas a queimadura só seria percebida depois de algumas horas, assim como se tivesse passado um dia de sol forte na praia sem protetor.
- Tá. E as balas?
- Adrenalina. Quando chegou aqui coletei um pouco de sangue. Ainda estava líquido nas artérias. Ele tinha um nível de adrenalina muito mais elevado que qualquer nível normal. Como se tivesse injetado uns 10 ml direto no coração. Isso pode tê-lo feito resistir às balas. Provavelmente, quando era vivo, tinha um metabolismo incrivelmente acelerado.
Marcos sentou-se na cadeira próxima enquanto Bete lhe explicava o funcionamento da adrenalina no organismo humano.
- A adrenalina diminuiu a circulação periférica do sangue, impedindo que faltasse fluxo no cérebro e coração dele.
- E isso o deixou insensível às balas.
Marcos riu da sua própria afirmação. Bete o olhou visivelmente irritada. Mas deixou passar.
- Olha, Marcos, nenhum dos seis tiros atingiram o coração.
Continuou a médica olhando para o corpo na bancada.
- Foram nove. Bete.
- Não, foram seis. Olha aqui.
Marcos olhou para o peito do homem incrédulo. Ali só tinham seis marcas de perfuração.
- Mas eu dei nove tiros, Bete, eu sei disso.
- Marcos, aqui só tem...
O homem havia se levantado e pulado da bancada, fazendo a maca metálica que antes continha seu corpo ir ao chão com um barulho estrondoso. Bete caiu sentada no chão em estado de choque com o que via. Marcos, que também havia caído tentou se colocar de pé, mas recebeu um chute no estômago do homem. Seu peito ainda possuía quatro marcas das nove balas. Outro chute acerta as costelas de Marcos, que sente várias delas sendo quebradas. O homem se vira para Bete e em dois passos a alcança levantando-a violentamente do chão, fazendo-a deitar sobre a bancada. Sua esclera avermelhada chamava atenção, e os dentes pontiagudos sorriram maliciosamente.
- Obrigado, doutora. Eu poderia ter levantado antes, mas confesso que fiquei curioso em entender mais sobre minha natureza. É difícil a compreensão do que se é quando seus iguais não se dão muito bem. Mas, graças à senhora eu entendo um pouco agora. – Disse o homem. Ele pega seus caninos na bancada e os observa em sua mão.
- Não prometo que não vai doer, pois você tirou meus caninos. Custa muito dinheiro fazê-los. Mas vai doer menos do que no seu amigo.
Bete olhava os dentes limados bem de perto quando ouviu um tiro, depois outro e outro. Marcos estava ainda deitado no chão, mas seu ângulo de tiro era bom, não colocaria Bete em risco. Mais dois tiros. O homem grita, e larga a médica em cima da bancada correndo em direção ao basculante na parede oposta. Seu corpo ganha incrível velocidade até se chocar contra o vidro e metal praticamente arrancando-o da parede caindo do lado de fora ganhando a madrugada.
Os dois mal podiam acreditar no que viram. Bete se levanta da bancada para ajudar Marcos a sentar-se na cadeira. Suas costelas e queixo doíam muito. Bete deixou marcos na cadeira e saiu para procurar ajuda.
Eram mais de três horas da manhã, e o IML Afrânio Peixoto da Avenida do Gasômetro fica quase deserto neste horário. Bete correu pelo corredor na direção da sala de recreação do outro lado do prédio, onde alguns policiais deveriam estar.
Sentado na cadeira, Marcos ainda relutava em acreditar naquela noite. Quem ou o que era aquilo? Um vampiro de verdade? Era surreal demais para se acreditar. Pensou no relatório que teria de fazer e no pedido de psiquiatria que seu supervisor o encaminharia. Uma mão de mulher toca com delicadeza no seu ombro, Marcos se vira para falar com Bete e vê ao seu lado, a mulher que foi dilacerada pelo vampiro. Seus olhos possuíam a esclera avermelhada como os olhos do homem. Suas unhas apertaram-lhe o ombro e rasgando a pele, sua boca tinha hálito de sangue podre, e Marcos sentiu seus dentes, muito perto, e viu sua arma ainda com três balas em cima de outra bancada, muito longe.
Publicado por Marcelo Ez.
Marcelo Ez ficaria numa crise existencial terrível caso tivesse que dissecar alguém de sua espécie a serviço do governo.


16:09
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4 comentários:
Uma pergunta aos demais escritores desse blog: estamos abandonando o barco?
Por que estaríamos?
Pergunta: foi a necropsia de Lestat?
Calixto, eh soh olhar a queda na atividade do blog, ha semanas inteiras com apenas 1 comentario nos textos dos demais escritores... na maioria das vezes com nenhum... olha as ultimas semanas. O Deserto da Troca de Opinioes.
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