Certo de que estaria no lugar que lhe pertencia, meteu-se com um grupo de vereadores. Deu-se muito bem, mas muito bem mesmo no começo. Um cargo de secretário, uma indicação para um hospital, alguns parentes empregados, emprego para o filho mais velho, aquilo que sempre se consegue quando debaixo das asas certas. Mas aí veio a decisão de ele próprio ser o vereador.
Mesmo com o conhecimento, ainda não tinha o seu lote. E muitos acharam que era uma petulância, uma afronta, ele agora querer ser vereador, Ele não consegue não, ainda é muito pobre, mas montou chapa, deu as caras. Não deu outra, cortaram o maluco. Levou três dias para montarem o corpo.
Dez anos depois, foi o filho. Usou a morte do pai como campanha política. Fez barulho, carro de som, showmício, deu reboliço. Chegou a vereador. Um ano depois de trabalho estava sendo levado pela Cruz Vermelha para asilo político, Vamos matar você e sua esposa, branquelo filho da puta. No exílio, acabou indo pra Espanha, foi vítima do ETA. A esposa, quando retornou, não levou cinco anos para chegar à prefeitura. Primeira mulher na prefeitura assim, e linda, muito linda. Conseguiu a vida rebolando. De vez em quando uma boquinha, sobe-se na vida subindo a vida. E foi no que deu, dando. Conseguiu se formar prefeita, dois mandatos. Um outro de vereadora. Meteu-se com o governador. Foi governadora.
Quis encaixar o filho. Mais um outro vereador. Fez que nem a mãe, mas fotos dele dando o rabo fê-lo ficar com a fama ruim, queimado. Um dia lhe entregaram até um hipoglós, é bom pras assaduras, vereador. Não conseguiu mais votos. Hoje é assessor. Passou a apoiar um grupo de moradores de uma comunidade nova na Avenida Brasil, tirava um do tráfico, depois foi um arrego para os milicianos. Souberam da treta, disseram que ele tava envolvido com o chefe de polícia. Outra foto dele dando o rabo, queimou ele, o policial e a mãe. Ela não conseguiu chegar à deputada. Tava quase lá.
O policial que foi pego carcando veio com o slogan, Comigo não tem essa, meto o pau em qualquer um. Tornou-se o vereador mais votado daquele ano e ainda por cima descolou umas fotos na revista de nu masculino. Maior público votante feminino na história, um arraso. De vez em quando comia uma coroa e uma garotinha. Mas se fudeu quando uma de suas arregadas pegou ele comendo a filha mais nova, que era de menor, e o filho mais velho, viado que só, Porra, do que você gosta?, teve que responder por assédio sexual e pedofilia. Perdeu o cargo. Fez outro ensaio dentro da prisão, a filha ganhou destaque, fotos de capa, Olha a perna dessa garota, não deu outra, destaque de bateria da Salgueiro e vereadora por um partido novo. Conseguiu uma prefeitura, outra prefeitura, deputada estadual, acusada de enriquecimento ilícito, batida no apartamento atrás de provas, encontraram drogas. Ela gostava de um poteco. Quando descobriram que ela cheirava junto com os filhos, Gente, somos modernos, isso não faz mal não, foi enquadrada, perdeu mandato, quem ganhou foi a empregada, não era bonita, nem feia, normal, muito normal, mas foi vitimizada, não suportava ter que ver aquelas cenas todos os santos dias, Como alguém pode suportar isso assim?, É pelo dinheiro, moço, eu preciso sustentar meus filhos, você queria que eu dissesse o quê? É errado, eu sei, mas ela era minha patroa. Mídia corrosiva, ela também ganhou para vereadora. Veio contra as drogas e pela educação. Ela e mais vinte. Só ela e mais três ganharam. Dez anos depois, a primeira mulher presidente a vir das classes inferiores.
Publicado por Márcio Calixto.
Márcio Calixto está escrevendo a versão de Maquiavel para crianças.


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