Vamos injetar a madrugada/Inalar a madrugada/Tóxica e doce/
Vamos perder o trema/ e o sentido das palavras/ Vamos nos perder de alguma forma antes do anoitecer/ Vamos injetar a madrugada olhos adentro.../ vamos estalar os ossos e extrair deles o que há de óbvio/ toda canção óbvia/ todo desatino sólido.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Warp Zone - game over

     A busca na memória levaria os garotos primeiramente à casa de Dona Gomerci – lembravam-se de terem visto algumas coisas atulhadas pelo quintal quando tiveram de podar-lhe as árvores. Pelo que se podia calcular, havia, de alumínio, uma meia dúzia de trilhos de cortina, uns dois baldes amassados e uma bacia de roupas; de ferro, uma janela e duas cadeiras. Pelo menos.
     Tratava-se de um carregamento razoavelmente grande, o suficiente para que os cinco fizessem parte da ação, já que o melhor seria liquidarem a carga em viagem única. Além disso, nenhum transeunte teria dúvidas de que aquilo era um saque se resolvessem passar todo aquele volume por cima do muro. Por incrível que parecesse, o caminho mais absurdo era também o mais viável: pelo portão, como se nada estivesse acontecendo. O quinteto, embora não jogasse no futebol da rua, sabia que os garotos mais velhos tinham um macete para secretamente pegar a bola quando caía lá, bastando virar o cadeado de lado para que o ferrolho se abrisse. Os meninos teriam apenas que esperar o domingo, quando Dona Gomerci e toda a coroada da vizinhança – os únicos a acordarem cedo num domingo – estariam na missa das sete. Quaisquer outros que passassem não estranhariam tamanha naturalidade, e a velha, provavelmente, nem daria falta daqueles itens, por tanta quinquilharia preservada no quintal.
     O plano deu certo. As crianças esconderam o material no próprio terreno baldio que dava para os fundos da casa de repouso, embaixo do lixo que elas mesmas haviam colocado nas semanas anteriores. Até a segunda-feira, quando realizaram a venda. Depois disso, sentiram que podiam fazer qualquer coisa.
     Os alvos seguintes, no entanto, não puderam dispor das mesmas circunstâncias, obviamente. As missões noturnas eram maioria; e os objetos encontrados, poucos: quadro de bicicleta, secador de roupa, carrinho de feira – qualquer metal que pudesse ser passado sobre os muros. Mesmo assim, não eram tantas as casas cujo acesso aos fundos fosse fácil, precisando muitas vezes que se restringissem às de esquina, pela visão lateral.
     De modo que não tardou para as ações evoluírem à caça de coisas úteis, por escassez das inúteis. Uma noite, levaram um botijão vazio de gás. Outra, um cheio, apesar do peso. Rodas de carro de um borracheiro que mantinha uma pequena oficina em casa. Assim como o minicompressor do mudinho que havia feito de cicle o quartinho embaixo de sua escada. Tudo que os meninos levavam o homem do ferro-velho comprava. E àquela altura já cagavam grosso até nas cabeças dos amigos que nem frequentavam as locadoras de videogames. Afinal, sempre haveria alguém para fazer o mesmo nas cabeças deles também, como aqueles mesmos garotos mais velhos, que posavam triunfantes em suas camisas bordadas de gola rolê, calças balinesas e papetes fluorescentes pelas festas de rua – uma realidade que, embora não representasse salto algum na classificação sócio-econômica, permanecia ainda fora de alcance para o grupo.
     Mas, como já não era mais o tempo dos jogos sem fim como Enduro e River Raid, aquele foi zerado. O comentário de que as casas andavam sofrendo invasões crescia conforme o desejo de se castigar o invasor desconhecido. E algo do tipo aconteceu.
     Henrique trabalhava fazendo no-break para uma empresa de telecomunicações, então dispunha na garagem de sua casa de uma Fiorino com um gerador a gasolina, e mais de uma dúzia de baterias de carro. Os garotos descobriram que o portão daquela garagem admitia um outro tipo de macete, levantando-se o trinco de baixo e puxando as duas abas do portão ao mesmo tempo. Quando Henrique se preparava para sair na manhã seguinte, deu falta das baterias e ficou sem entender coisa alguma. Foi Seu Orlando do final da rua, que assistira a tudo de seu sobrado, quem lhe explicou o que havia acontecido.

– Ah, mas isso não vai ficar assim, não!

     Henrique encontrou os cinco em uma das locadoras e arrastou-os pelas camisas, trancando-os na Fiorino e passando pela casa de cada um deles para dizer às mães que seus filhos haviam sido apanhados roubando, e que, além de recuperar as baterias, eles passariam o dia inteiro carregando areia na obra da casa de seu pai. As mães apoiaram.
     Infelizmente, o castigo não foi o bastante. Os meninos calcularam que ainda haveria tempo para uma última operação, já que suas mães não sairiam espalhando o ocorrido – por vergonha – e Henrique e seu pai só voltariam à noite; logo, pouca gente chegaria a saber antes do dia seguinte. Quem os via ali, carregando areia, achava que estavam apenas trabalhando, como sempre fizeram. Ao mesmo tempo, se agissem naquela madrugada, possuiriam o falso álibi de já terem sido descobertos, o que teoricamente inviabilizaria novas ações do grupo, transferindo-se a autoria do novo ataque a algum perpetrador desconhecido.
     E assim se fez. Ou quase.
     A casa de João Pescador não tinha muro. Era só uma faixa larga de terra com um recuo de uns dez metros até a varandinha da frente, entrada para a casa humilde. Naquele trecho de terra havia a Marajó de João e um reboque curto com um pequeníssimo barco em cima, coberto com uma lona amarrada. Um pequeníssimo barco de alumínio. João tinha suspeitas sobre quem andava praticando as invasões, e sabia que mais cedo ou mais tarde seu barco seria o alvo.
     O plano dos meninos era esconder o barco no lixão que se formara atrás da casa de repouso até que o próprio homem do ferro-velho e seu ajudante fossem buscá-lo com a camionete. Todavia, o que se seguiu foi o desfecho torto que só um catálogo de equívocos como aquele poderia construir.
     As crianças desapareceram como se tivessem entrado por uma warp zone.
     Henrique foi apontado como principal suspeito pelo desaparecimento das crianças. Como nada seria provado, os moradores do bairro decidiram puni-lo por conta própria – alegavam que Henrique tentara criar um falso álibi ao passar pelas casas avisando que havia apanhado os garotos roubando.
     João continuou pescando. Ninguém sequer ouviu falar sobre qualquer tentativa de roubo de seu barco.
     E como toda warp zone tem saída, quatro meses depois o quinteto foi encontrado. No terreno baldio que dava para os fundos da casa de repouso, quando a Prefeitura finalmente resolveu atender o pedido dos moradores para acabar com aquele monturo que eles mesmos ajudaram a criar.



Publicado por Carlos Vinicius Ribeiro.
Carlos Vinicius Ribeiro até gosta bastante da música de Lana Del Rey, mas reconhece que a Florence Welch se envolve muito mais.

1 comentários:

Marcelo Ez disse...

Vini, voce é um cara cruel. E eu gosto disso.

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